Enquanto houver Água, haverá Áfricas

(VIEIRA, 05/2017)

Barbárie,
Conflito,
Discórdia,
Minha história não era assim,
Nem sempre foi assim,
Me fizeram acreditar que sim.
Mas algo me dizia que tudo ia mudar,
As Águas me diziam que tudo ia mudar.

Escravizada,
Pernas abertas,
Peito de Fora,
Preto fujão, preta estuprada,
Marcaram minha pele, minha cor,
Aqui eu já não tinha mais valor.
Me restava somente a dor.
Mas as Águas, essas sim me acompanhavam desde lá
Até cá.
Em lágrimas,
Que rolavam,
Secavam,
Rolavam …

Cresci assim, num buraco escuro,
Senzala,
Fiz festa.
Vi criança crescer, vi velho morrer,
Mas o dito era sempre acreditar que tudo ia mudar,
As Águas me diziam que tudo ia mudar.
Fiz festa de novo,
Cabelo trançado, beiço florido
E olhos armados,
Apesar dos castigos,
Colares de madeira, e máscaras de ferro.
A dor era tamanha,
Maior ainda era minha fé nas Águas.

Meus Santos escondidos,
O deus dos brancos dizia ser mais digno,
Mas nas encruzilhadas eu aprendi
O jogo, a malícia de se conseguir
Aquilo que as Águas prometiam pra mim.


Vi irmãos serem mortos,
Vi irmãos,
Que não eram irmãos,
Mas se tornaram irmãos
Lutando pelo mesmo propósito.
A angústia era presente
Eram poucos os dias que a gente ficava contente,
Mas num sorriso meu a Senzala virava festa
E eu não deixava de acreditar nas Águas.

Até que um dia, a tortura foi mais forte
Como podia, Eu?
Rainha de máximo porte
Está aqui, nessa terra desconhecida,
Sofrendo, servindo de cria,
Mucama pras sinházinha!


O chicote cantou,
E o meu corpo chorou.
Olha de novo, as Águas me acompanhando.
Em lágrimas eu me refazia.
As marcas eram fortes,
Violentas, perversas.
E naquele dia eu gritei.
Mamãe me fez Rainha
Só meu santo era meu Rei.
Me segurei, escondi a dor
Aqui eu não fico mais.
Como podem as Águas querer esse destino pra mim?
Isso não se faz!

Os dias foram passando,
Calei minha dor e fui para a Casa Grande
Os brancos diziam que eu era da família
O sinhôzinho gostava do meu tempero
A sinházinha até dizia que gostava do meu cabelo.
O capitão do mato, gostava do meu corpo.
Isso o seduzia, ele ficava louco.
Até que eu dei meu bote,
Feito cobra, perversa, mostrei pra eles meu verdadeiro dote.

A valentia escondida entre as tranças,
O veneno escondido entre os peitos,
E assim eu fiz,
Libertei a mim e meus irmãos
Ao capitão, só lhe restou o mato,
Chicotada no lombo, faca cravada no coração
As Águas de novo me acompanhando feito lágrimas,
Eu cantei com meu povo,
Naquele dia não havia Senzala, mas se houvesse
Ela estaria em festa.

Fomos embora,
Eu e meus irmãos,
A gente corria pelas matas vendo sangue escorrendo no chão
Sangue daqueles que já foram mas nos deixaram a força
De continuar acreditando nas Águas,
Nas nossas Águas.

De Arroio até Livramento
De Urubu até Palmares,
Entre Akotirenes , Dandaras e Felipas crescemos
Cresceram,
Crescem,
Meu povo ainda floresce.

Alguns ainda carregam a dor das chicotadas
De um passado que dizem que acabou
Mas permanece,
Sorrateiro,
Nas nossas encruzilhadas.
Querem tapar nossos caminhos
Mas as Águas..
Ah esse povo branco, ou melhor, estúpido que não sabe de nada.

Hoje vejo minhas descendentes
Saindo pelas ruas,
Sorridentes,
Nossos cabelos crespos são lembrados,
Nossas estampas, nossos deuses agora podem ser cultuados.
Empoderamento,
Me avisaram que essa é a palavra
Quero ver minhas mulheres pretas letradas,
Estudadas, firmes e fortes cada uma em sua batalha.
Quero ver os homens pretos, valorizando a raça.
Querendo as pretas em casa, nas ruas de mãos dadas.
Com orgulho da escolha, sabendo que essa foi acertada.

Quero ver nossas estampas,
Mas também a nossa língua afiada.
Não estou querendo guerra não.
Nossa arma aqui é outra.
Quero ver estética, mas quero ver discurso.
Coerente.
Forte.
Firme,
Seguro, que nem as Águas.

Porque nesse tempo todo,
Se teve uma coisa que eu nunca deixe de fazer foi acreditar nas Águas.
Tentaram apagar meu passado,
Tentaram me fazer sucumbir às terras perversas.
Mas as Águas não param,
Elas correm, soltas, livres e firmes.
Espertas daquilo que querem e onde vão chegar.

Hoje eu desaguei, encontrei aqui o meu lugar,
Entre Águas, Águas e mais tantas outras Águas.
Daqui onde estou, fortaleço minhas crianças, meu povo
Que hoje é a minha esperança
E amanhã ou depois vão estar contando,
Recontando,
Refazendo a minha história de Água que sempre fui.
De Água que ainda sou.

Eu não me deixo esquecer.
Cada dia,
Quando olham pra mim, eu reflito meu passado.
Porque Água também é espelho.
Espelho também é passado.
É futuro.


Eu quero festa nas senzalas.
Eu quero pretas nas gargalhadas,
quero me ver nessas Águas.
E ser vista pelas Águas.
Essa Águas que ainda não vi,
Aquelas Águas que jamais me esqueci,
Na certeza que
Enquanto houver Água, haverá Áfricas.

Tainã Vieira; autora de textos e sentimentos. Água acostumada a trazer letras e prosperidades.

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