O racismo e suas marcas na identidade e no corpo da mulher negra

Por Ana Rosa Santos

 

O mês de julho é considerado o mês da mulher negra latino-americana e caribenha. É um momento oportuno para colocar em debate as especificidades do feminismo negro, ou seja, é preciso considerar que a mulher negra é oprimida ao longo da história não só pelo machismo, mas também pelo racismo e pela classe social da qual faz parte. Neste contexto, é fundamental refletir sobre as marcas e sofrimento psíquico e social que o racismo pode trazer para as meninas e mulheres negras. As limitações que esta violência lhes impõe são cruéis e a mais dolorosa delas é corromper a autoestima, fazendo com que estas mulheres duvidem consciente ou inconscientemente da sua capacidade, da sua beleza, da sua sensibilidade e do seu poder. Marcadas por discursos racistas e machistas como “cabelo ruim, cabelo de bombril, da cor do pecado, nasceu com um pé na cozinha, não sou tuas negas”, dentre tantos outros, nós mulheres negras levantamos em defesa dos nossos direitos e da nossa dignidade humana. É tempo de RECONSTRUÇÃO. Reconstruir a nossa identidade, conhecer a história das nossas antepassadas e nos inspirar umas nas outras para nos fortalecermos e nos representarmos na luta contra tudo que nos oprime.

Assumindo o lugar de fala de quem sofreu e teve a identidade mutilada pelo racismo, afirmo que travei muitas batalhas internas e externas para chegar até aqui e muito ainda precisa ser feito para que as feridas que um dia foram abertas possam de fato cicatrizar-se. A infância e a adolescência foram tão difíceis que ainda hoje dói. Minha relação com o meu corpo e o meu cabelo sempre foi conflituosa. A rejeição por causa da cor, da pobreza e pelos constantes insultos ao meu cabelo me levaram a pensar: se o cabelo é ruim e eu sou a dona do cabelo, logo eu também sou ruim e acabo assumindo a culpa pela feiura que me impede de ser aceita.

Os primeiros contatos com a televisão confirmaram que a mulher bonita e desejável é branca, loira, de cabelo liso e de franjinha na testa. Dessa maneira, só havia uma forma de ser mulher e para isso precisava de uma franja. Sentia-me suja e feia por ser preta e ter o cabelo crespo. Alisei o cabelo e fingi que era branca. Comprei um pedacinho do mundo dos brancos para poder ser considerada gente. E passei boa parte da vida tentando provar que eu merecia este lugar. Porém, sempre persistiu um enorme vazio, triste e corrosivo que me deixou insatisfeita com a vida. Faltava o que era eu. Viver de aparências cansa. Somente recentemente comecei a me encontrar. Olhei-me em outras mulheres com histórias parecidas e percebi que podia dar outro rumo a vida. Percebi que quando uma mulher negra solta o cabelo este é um ato político. Uma encoraja a outra e vão formando uma corrente. Uma rede de apoio que aos poucos vai firmando e solidificando uma nova identidade.

De repente o cabelo que era feio vai se tornando bonito e a pele que era suja vai se tornando sua cor. O vazio e angústia vão se tornando amor. Tenho a sensação que estive no mundo sem existir nele, pois não era capaz de me perceber a partir de mim mesma, até entrar em fase de reconstrução, refletindo sobre as consequências do racismo para a minha vida. Hoje, acredito que é possível “tornar-se negra”. Neste mês de julho faz um ano que não alisei mais o meu cabelo e cada dia que passa o amo mais. Pois, reencontrei um pedaço de mim que um dia foi perdido e desvalorizado. Cada vez que refiro a mim como preta sinto amor e não mais a dor.

Então, mulheres pretas, vamos assumir a nossa dor, dizer não ao racismo todos dias para que aos poucos vamos encontrando o amor. Amor próprio que cura, liberta, protege e cuida. Vamos cuidar umas das outras!

 

Ana Rosa Santos é Pedagoga e Psicóloga. Tem produções na área de Representação social e a formação da identidade da mulher negra: um olhar sobre a novela Babilônia. (ainda não publicado); Atua com Psicóloga clínica em Bom Jesus da Lapa/BA.

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