Zeferina vive, Zeferina Salva!

Satisfação é a palavra que define as ações realizadas nos dias 20 e 21 de Julho na Biblioteca Zeferina Beiru em Salvador.
Nós da Rede Dandaras, quando nos debruçamos para construir os eventos do mês de julho, tínhamos certeza do que buscávamos: algo que fosse forte e significativo tanto para nós, quanto para a comunidade, afirmando sempre o nosso papel de promover saúde á população negra.

Sabemos que no mês de julho várias são as atividades voltadas para a população negra, tendo em vista a data comemorativa do dia 25, porém, tirar o foco do centro da cidade, trazendo maior visibilidade para bairros mais periféricos é essencial, sem contar o quão significativas são as histórias do bairro e da Biblioteca. Não existiria lugar mais pertinente para falar sobre Afetividade e Herança.

O diálogo com a equipe coordenadora da Biblioteca Zeferina Beiru foi fundamental para uma construção coletiva do evento, afinal, não basta somente propor estratégias, mas, é indispensável a participação de todos no planejamento.

No dia 20, contamos com uma Oficina de Percussão com Mafá Santos. Eram jovens e crianças, com idades diversas podendo experimentar e trocar os instrumentos disponíveis. Entre atabaques, triângulo e maracas, a euforia era tamanha, mas nada silenciava a organização com que tocavam. Em pouco tempo foi possível ouvir uma orquestra ijexá e cada um respeitando a sua vez e a vez do outro.

Ainda no primeiro dia fizemos uma Roda de Conversa após a exibição do curta metragem Cores e Botas de Juliana Vicente, contamos com a participação do Coletivo Niara Psi (UNEB), falamos um pouco sobre os aspectos do filme e como o racismo é presente no nosso dia a dia, falamos sobre os estereótipos sociais e como somos cobrados quando não os atingimos.

Conversar sobre racismo quase sempre deixa o clima tenso, afinal, falar sobre nossas dores não é fácil. O desfecho então não poderia ser diferente: poesias foram recitadas de forma livre por uma, duas, três, várias vozes, todos atentos ouvindo, sentindo. A leveza foi voltando, mas agora todos já se sentiam pertencentes aquele ambiente. Era como se estivéssemos em casa, na verdade, estávamos em casa.

A tarde do dia 21 começou com a Oficina de Abayomi com Viviane Moreira e Michele Santos e não foi somente aprender a fazer a boneca, mas também conhecer o significado do nome e a história dessas bonecas. O que era “coisa de menina” virou “coisa para todos”. Meninos e meninas, sentados, juntos, ouvindo as instruções e confeccionando suas bonecas e colocando nelas o que cada um tinha de mais especial, a sua forma de ver a vida.

Logo em seguida aconteceu a vivência de Samba de Roda com Ádila Barreto, que primeiro nos levou para o fundo de um navio negreiro, de olhos fechados todos juntos no balanço do mar. Vieram á tona lembranças de coisas que não vivemos, mas, que são até hoje muito vivas na nossa memória.

Depois nos reunimos em roda, e respondemos ao que os atabaques mandavam. Não existia certo nem errado, o corpo apenas ia responder ao som que estava sendo tocado.
Dadas as mãos, ficamos livres para dizer como foi para cada um a experiência vivenciada nesses dias. Mesmo estando numa Biblioteca, muitas vezes faltavam palavras para traduzir o encontro. As lágrimas seguiam seu rumo ao encontro da boca e aquilo já dizia tudo. E tudo finalmente terminou em samba, munguzá e poesia.

A desvalorização da nossa cultura na cidade de Salvador leva o foco do consumo da produção cultural para os centros da cidade e negam a maternidade desse produto que vem do gueto. A periferia sofre um silenciamento cultural quando seu produto não é promovido e o seu rótulo de marginalidade e criminalização é reafirmado. Sabendo que a mídia é um dos maiores influenciadores na construção da nossa identificação enquanto povo e, reconhecendo esta como fator potencializador em discriminação, escolher seguir esse caminho na construção do evento tem o objetivo de reescrever narrativas e fortalecer a diversidade que a comunidade negra grita sua identidade.

Ter a oportunidade de construir e vivenciar esse evento foi também um despertar de maturidade profissional para perceber até onde podemos ir. Ver um espaço com poucos recursos promovendo saúde na forma que a Biblioteca vem fazendo é reafirmar o nosso desejo de promover saúde e o nosso objetivo de ser pelos nossos. O caminho está sendo trilhado e a semente foi plantada. O que fica é que ainda que não tenhamos muito para dar, sempre teremos muito para aprender.

À Zeferina Beiru o nosso Salve!

 

Texto: Laura Augusta e Tainã Palmares.

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