É um desafio ser uma psicóloga negra!

Por Tainara Cardoso¹
Quando digo isso, falo sobre N fatores que me levaram a enunciar hoje, aqui e agora. Desde ouvir de pacientes que “acha estranho você ser uma psicóloga” até um paciente chorar quando entra no consultório, se depara com você e diz estar emocionada por ser atendida por uma pessoa como ela e ainda completar: “você é inspiração”. Não tem preço, ética, CRP, teorias e academicismo nenhum que entenda isso. Não tem.
Procurei uma profissão que significa “estudo da alma” em um contexto social onde as minhas origens, o povo que me representou e representa a minha história, já foram declaradas como povos sem alma, animais e selvagens. Era só o nosso corpo, visto como subserviente que os importava. Eu, Tainara, nunca tive “consciência” sobre isso, não sabia o quanto de racismo havia em tudo isso, mas, notoriamente eu sentia. Desde sempre eu sabia que seria um desafio e ainda é. Conheci pouquíssimas pessoas que um dia tiveram condições de serem atendidas por psicólogos. Dá terra de onde venho, psicologia era coisa de bacana e depressão é coisa de rico! Ou seja, o cuidado com a saúde psíquica deles nunca foi uma questão. O sofrimento faz parte da rotina, mas o sofrer não era permitido e ainda não é. As vezes me perco se é presente ou passado porque não sei mensurar o quanto já mudou. Meu apelido, para muitos é “doutora”, pra alguns me torno referência e se eu estranho a maioria nunca ter sido consultada, eles estranham mais ainda conhecer uma psicóloga. Melhor, uma deles, como eles e com eles sendo psicóloga.
Há pouco tempo ouvi algo muito bonito de uma pessoa que aprendi a considerar muito e me ensinou muito em sua fala. Ela me disse que não entendia quando eu levanto a bandeira de que precisamos racializar as teorias e que quando um paciente negro demanda por um psicólogo negro, tem um mundo de questões ali que nenhum psicólogo não-negro vai compreender. Mas é um compreender, que é diferente de conseguir acompanhar o caso. Ela me disse que pensou sobre isso e viu que só no fato dela não conseguir me entender, já demonstra o quanto ela ainda não se encontra tão implicada nessa questão. Ela percebeu que ao repudiar essa demanda, ela reforça o mecanismo racista, não compreendendo que a nossa força é conjunta, é coletiva, não sou absolutamente nada sem as experiências dos meus semelhantes. É muito mais do que uma relação terapeuta-paciente.
Quando a própria psicologia me diz que as pessoas iguais a mim são as que, em maior número, mais adoecem mentalmente e as que menos têm acesso aos tratamentos, eu digo a ela que estou aqui para não aceitar isso e fazer o que for preciso por nós.
É um desafio saber que sou ainda muito pouco diante de tanta opressão, falta de conhecimento e desonestidade com a população negra nesse país. É um desafio não encontrar referências. É desafio saber que além de instrução e conhecimento eu sou representatividade e que isso exige tudo o que sou de mim por nós. É um desafio abrir a porta do consultório e ouvir de pacientes, que têm construído uma identidade racial, sofrimentos pela morte de entes queridos causada por uma regular cultura de extermínio e ódio por nós, que o meu cabelo faz alguém se movimentar ou até uma pessoa negra que nunca me viu antes se espantar com a minha presença e disparar: “obrigada por estar aqui”. Eu não preciso dizer nada, pois o meu corpo é politizado, ele fala por si, ele surpreende, ele grita e afaga ao mesmo tempo e é com esse espanto que eu me levanto e digo, mesmo que em silêncio: aqui continuarei. Por nós e pra nós.
¹Tainara Cardoso tem 23 anos, moradora da cidade de São Gonçalo e formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atua como coordenadora do projeto “África em Nós”, que visa fomentar o debate sobre o racismo nas escolas, legitimando e nutrindo a Lei 10.639 do ano 2003. Integra a equipe técnica do CAC (Centro de Acolhimento e Cidadania) em São Gonçalo, sendo um trabalho com aproximadamente 20 crianças e adolescentes em situação de violência e/ou abandono. Atuará a partir dos próximos meses como Psicóloga Clínica em seu município, através do projeto clínico criado, em parceria com uma amiga, chamado “Psicologia em Diáspora”. Pesquisa sobre os “Os impactos do racismo na construção de subjetividade” e escreveu a Monografia, cujo título é: “Psicologia e racismo: Ressignificando a profissão no país onde bandido bom é bandido negro”.
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