“A Psicologia é estar ali com o outro. Mas não de qualquer maneira. Não desprovida de um repertório mínimo que me possibilitasse uma ajuda para além da escuta cotidiana.”

Por Carolina Rezende Alcântara¹

Foi com muito prazer que recebi e fui impelida a tomar o convite da Rede Dandaras para escrever, repensar e rever a minha atuação profissional dentro da Psicologia. Entendo que é somente através da via da reflexão que podemos nos encontrar pessoal e socialmente e vislumbrar os caminhos que elucidam a trajetória que traçamos. É somente o fazer reflexivo que nos possibilita ler o contexto da nossa prática profissional cotidiana e impulsioná-la para outros alcances.

A minha formação na Psicologia sempre fora deliberada. Por mais que desafios tenham sido colocados ao longo desse processo, nunca fora uma exploração aleatória e sem eixo. Sempre houve metas, planejamento, etapas (construídas e desconstruídas) que incidiam sob o interesse de construir uma prática que envolvesse a atuação com crianças e processos de saúde-doença.

Neste contexto, entender a formação universitária como espaço de preparação teórico-prática sempre me parecera óbvio e sempre incitou a busca, ainda que precoce, por experiências que pudessem de alguma forma alicerçar e sustentar esse interesse. Foi a partir desta busca que iniciei atividades no Hospital Universitário Professor Edgar Santos, o Hospital das Clínicas da Bahia, nos setores de Unidade de Terapia Intensiva, e posteriormente nos ambulatórios de Nefrologia e Infectologia. E adiante, no Grupo de Apoio a Criança com Câncer da Bahia.

A meta inicial era simples. Compreender e me aproximar do universo de atuação do Psicólogo Hospitalar nestes ambientes e avaliar se os desafios inerentes ao trabalho com a vulnerabilidade humana perante estes processos de adoecimento iriam me impelir para o seguimento nessa área de atuação ou evidenciar os meus limites pessoais que implicariam na busca por outras possibilidades dentro da Psicologia.

Fiquei com a primeira opção e com a construção imediata da percepção de que precisaria me instrumentalizar para uma atuação sólida neste espaço. A Psicologia é estar ali com o outro. Mas não de qualquer maneira. Não desprovida de um repertório mínimo que me possibilitasse uma ajuda para além da escuta cotidiana. A partir de então, a busca pela formação contínua dentro, fora e paralela à formação universitária na UFBA, se fez presente. Foram inúmeras as possibilidades de avanço técnico e teórico através do apoio de profissionais e instituições que partilharam comigo a formação voltada para o desenvolvimento infantil, psicologia hospitalar, psicooncologia, psicomotricidade, direitos humanos. Brechas para novas áreas do conhecimento que impulsionavam novas buscas pelo conhecimento. Aquisição de repertórios comportamentais específicos que possibilitavam acesso a novos reforçadores e a base para aquisição de novos comportamentos.

Rememorar esse início de trajetória profissional é ser inundada por um sentimento de gratidão por tantos profissionais que fortaleceram o meu interesse na área. Para além das perdas, lutos, desafios e dificuldades inerentes a qualquer processo de crescimento profissional. Hoje a minha prática é espelho que reflete muito do aprendizado junto a esses profissionais.

Penso que a postura investigativa que agrego hoje na minha atuação enquanto Psicóloga Hospitalar reflete ainda a experiência e inserção no campo da pesquisa dentro do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC). A minha atuação profissional hoje é ancorada em uma psicologia aplicada. É na transformação do desenvolvimento e processos pessoais de bebês, crianças, adolescentes e suas famílias que identifico os objetivos, meios e resultados do meu fazer enquanto psicóloga. Mas dito isso, penso que a postura investigativa e analítica em relação aos dados obtidos se refere a uma característica construída e aprendida a partir da minha experiência de estudante de psicologia pesquisadora no Instituto de Saúde Coletiva. Para além disso, a construção das bases de uma atuação interdisciplinar em saúde também se deu ali.

Inicialmente no Instituto de Saúde Coletiva e adiante no primeiro espaço de atuação na Psicologia, mais próximo com o fazer profissional que hoje construo. O Grupo de Apoio e Prevenção ao HIV/Aids da Bahia (GAPA) fora o espaço da prática estruturada voltada para a busca pela qualidade de vida de crianças e famílias e espaço no qual houve a construção da ideia de que a psicologia da saúde não se desvincula da educação em direitos humanos e nem da importância de ponderar no sujeito o seu contexto, as redes que lhe evidenciam em maior ou menor vulnerabilidade social. Estes eixos estão presentes na minha prática hoje, continuamente.

O GAPA alicerçou ainda os modelos de ética profissional em psicologia que caminham comigo nos dias de hoje. Fora porta fundamental para a Psicologia Hospitalar nos moldes mais tradicionais, mas me levou além. Simbolizou as experiências mais significativas ao longo desse período de formação, dentro e fora do Brasil. Me vinculou definitivamente ao universo da infância.

Penso que neste momento me avaliei mais segura. Ainda mais deliberada e iniciei minha trajetória na Rede de Hospitais de Neurorreabilitação referência no país. Em paralelo, veio o aprofundamento e certificações na Psicologia Hospitalar, Psicologia do Desenvolvimento e Terapia Analítico-Comportamental Infantil. Porque a prática e formação precisam sim serem continuadas, intensivas, revistas e reavaliadas.

Clichê da vida pensar que trabalhar com o que se ama é fundamental. Todo o sentido para a meu exercício profissional. Avaliar e estimular neurodesenvolvimento, desenvolver estratégias de estimulação cognitiva e neuropsicológica, compreender e apoiar cuidadores no processo de manejo de problemas de comportamento na infância são tarefas que demandam técnica, teoria, e igualmente ética e afeto.

Considerar multideterminantes implicados no desenvolvimento de cada sujeito é reafirmar, no caso da infância, as idiossincrasias de cada criança, seja em uma etapa de avaliação ou no planejamento, monitoramento de intervenções. É considerar que a despeito de haver variáveis orgânicas comuns, é necessário pensar em uma análise individualizada no planejamento da reabilitação, no âmbito hospitalar e fora dele. É dar contexto. Ser analítico, é reafirmar direitos. É exercer, com mais maturidade e aprofundamento, tudo o que construí de aprendizagem desde o momento inicial da formação.

É buscar um aprimoramento contínuo que faça jus ao sujeitos que se estabelecem como centrais para essa prática. Os pacientes e clientes. E aqui seguimos na formação em ABA para crianças e indivíduos com Transtorno do Espectro Autista.

E pessoalmente é realizar-me ainda. Eu, mulher, mulher negra, psicóloga, filha-esposa-irmã. Me encontro pessoal e socialmente também através da minha profissão. A nossa vida já é discurso. A nossa trajetória já é militância.

¹Psicóloga, graduada pela Universidade Federal da Bahia. Atua há dez anos em Hospital de Neurorreabilitação na Infância. Desenvolve atividades de reabilitação e estimulação neuropsicológica e estimulação do neurodesenvolvimento de crianças e adolescentes com lesão cerebral. Especialista em Psicologia Hospitalar. Especialista em Terapia Analítico Comportamental Infantil. Publicações nas áreas de Psicologia Hospitalar, Psicologia do desenvolvimento, Terapia Analítico Comportamental Infantil, Psicologia da Educação e Escolarização Inclusiva. Pesquisas em andamento nas áreas de Neurodesenvolvimento de Bebês e Enfrentamento Parental. Em formação ABA (Applied Behavior Analysis) para atenção a indivíduos com Espectro Autista e quadros assemelhados.

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