SER PSICOLOGA NEGRA É UMA CONSTRUÇÃO

Por Rosana da Silva¹

Quando pensei em minha trajetória enquanto mulher negra e psicóloga, foi primeira coisa que me meio a cabeça, ser psicóloga negra é uma construção. Nem sempre fui negra, antes eu era morena, e até que eu me afirmasse realmente como negra e compreendesse o que isto implicava demorou um tempo. O primeiro passo para essa afirmação passou pela aceitação do meu cabelo e pela transição capilar. Desde pequena nunca consegui lidar muito bem com o volume do meu cabelo, minha mãe sempre penteava cuidadosamente meu cabelo, amarrando, fazendo tranças, prendendo.
Durante a infância sempre quis ter o cabelo liso, era mais fácil de pentear , cuidar, não dava tanto trabalho quanto o meu. Durante minha adolescência perdi as contas de quantas coisas passei em meu cabelo para que ficasse com menos volume, dentre eles o relaxamento, prancha, gel para deixa ele no lugar. E meu cabelo não podia crescer um centímetro que já queria relaxar, porque estava ficando ruim novamente. Em um desses processos não me esqueço da fala de uma de minhas cabelereiras, “ precisa cortar essas pontinhas ruins aqui ”, apenas sorri e disse que sim.
Até que eu compreendesse que meu cabelo é um ato politico, que meu corpo em si é
politizado, demorou certo tempo. Me lembro que quando decidi parar com as químicas e
assumir meu cabelo natural, o sair na rua repetia para mim mesma, que meu cabelo era um ato politico, pois parecia que todos estavam me olhando e reparando somente no meu cabelo.
Essa transição como gosto de chamar, que não foi apenas física, teve impactos positivos na minha profissão, no meu ser psicóloga. Hoje realizo um trabalho voltado para auto estima de mulheres negras, abordando temas como representatividade, identidade, afetividade, entre outros. Essa mudança no meu olhar só foi possível a partir de minha própria transição, hoje afirmo com todas as letras e com orgulho, sou negra sim. Mas ainda há muito a ser feito para que outras mulheres, assim como eu tenham orgulho e consigam se afirmar e reconhecer como negras.
Durante a minha graduação não consigo me lembrar de nenhuma psicóloga negra e hoje
compreendo que através do meu trabalho posso ser referencia para outras de que podemos ocupar outros espaços, que sim podemos ser mais, o meu posicionamento enquanto psicóloga pode influenciar diversas crianças e mulheres que assim como eu sentiram os impactos do racismo e ainda sentem em suas vidas. Termino este texto dizendo, ainda há muito a ser feito.

¹Rosana da Silva tem 28 anos , é mulher, negra e Psicóloga (CRP 04/39120), apaixonada pela profissão. Graduada pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, é especialista em Gestão de Pessoas pela mesma universidade. Atua na área clinica com atendimento de crianças, adultos e idosos e é idealizadora do projeto NEGRAS em Transição, voltado para autoestima de mulheres negras. Idealizadora do e-book: Diálogos sobre Auto estima.
Atualmente desenvolve um trabalho voltado para autoestima feminina, especialmente para mulheres negras e em paralelo desenvolve um trabalho de clinica social em dois bairros do meu município, com o objetivo de tornar a psicologia mais acessível a todos, tanto no que diz respeito a valores quanto ao que ela pode proporcionar de bom as pessoas. Esse tem sido um desafio, mas tem possibilitado que a psicologia chegue ao alcance de mais pessoas. Acredita que todas nós somos capazes de coisas extraordinárias, só precisamos acreditar mais em nosso potencial, em nós mesmas e ter coragem de arriscar um novo passo

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