Sobre ser psicóloga e ser negra no Brasil – relato de uma trajetória

Por Rosa Alba Sarno Oliveira¹

Antes de mais nada, gostaria de dizer que achei valioso este convite para refletirmos e compartilhamos sobre estes dois signos identitários e seus desdobramentos. Então, me coloquei a trabalhar nesta reflexão compartilhada sobre o que vem sendo pra mim lidar com a identidade escolhida e que me escolheu de psicóloga, digo isso porque entendo que nossas escolhas são sobre determinadas por aspectos de nossa história e do
contexto onde vivemos.  E também pela identidade de negra que penso que se colocou
como uma marca também da minha história, transmitida por meus ancestrais e ao mesmo tempo foi e é uma escolha minha de me apropriar desta marca positivamente e fazer dela algo que pauta meu modo de me posicionar na existência, me relacionar com outros, dentro e fora do ambiente de trabalho.
Assim, tanto em minha caminhada pessoal como profissional tenho buscado fazer
valer os elementos da minha história como ferramentas que me fazem avançar enquanto ser humano, enquanto mulher, enquanto negra e enquanto profissional. Dentro do campo da psicologia, seja na clinica individual e institucional ou num enfoque mais pelo viés do empoderamento, busco trabalhar com esta dupla face da existência humana que podemos chamar de determinação e escolha. Um outro aspecto importante que me ajuda na atuação profissional e sobretudo na relação com outros profissionais é saber situar o que é da ordem da alteridade, da presença do diferente, deste olhar de fora e que também faz parte da gente e fornece elementos para nossa constante construção identitária e reposicionamentos na vida.
Em países com grau de deficiência cívica e quase nenhuma cultura de direitos
humanos como o nosso, a grupos sociais como os negros e as mulheres (dos quais faço
parte) serão relegados lugares de subalternidade, inferioridade – uma negatividade em
relação a um padrão que lhes seria exterior, mas que sabemos ter sido construída
historicamente. Em outras palavras, as pessoas que pertencem a estes grupos serão
frequentemente associadas a marcas identitárias negativas e deficitárias que podem ser
incorporadas e passar a fazer parte da identidades delas.

Portanto, penso que isto deve ser trabalhado e questionado seja perante outros profissionais, seja com as próprias pessoas. E nós, enquanto psicólogas e mulheres negras, muito mais do que as não negras, também seremos convocadas a todo instante a este trabalho constante de mesmo sabendo e reconhecendo os determinantes históricos do racismo fazermos a escolha por não o naturalizarmos. Certamente, existem várias formas de fazermos isso, seja mediante uma abordagem mais clinica e tradicional ou mesmo a partir de estratégias de empoderamento que podem ter inúmeras formatos. Dentre essas ultimas, tem me chamado atenção a construção de redes de pares, seja em grupos presenciais ou na internet. Inclusive, comecei a fazer parte de alguns destes grupos e venho observando a potência das intervenções que eles promovem e dos desdobramentos em que resultam!
Para mim, a escolha por não naturalizar o racismo define assim a direção de uma
atuação profissional dentro da psicologia com um compromisso ético-social e clínico que
envolve revisitarmos a nossa própria história e ao mesmo tempo estarmos abertos para
as singularidades das trajetórias daqueles com quem trabalhamos. Como já disse, nossos
componentes identitários estão em constante construção e remanejamentos, a partir
daquilo que nos é transmitido historicamente e pelo contextos sociais em que vivemos e
isso para mim repercute na minha atuação profissional. Assim, cada vez mais me sinto
prazerosamente desafiada a fazer dos meus projetos de trabalho um campo fértil para
reflexão e criação do novo. E neste campo, talvez agora de maneira mais explícita do que
antes, a questão da negritude e de outros grupos historicamente excluídos se coloque
como central!

 

¹Rosa Alba Sarno Oliveira, especialista em saúde mental pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ e mestre e doutora em clinica psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da mesma universidade. Recentemente concluiu o Pós-doutorado em estratégias de empoderamento em saúde mental a partir de uma parceria entre a Escola de Serviço Social da UFRJ e universidade de Yale nos Estados Unidos. Atualmente, trabalha como psicóloga na UFRJ, desenvolvendo um projeto de extensão com a produção compartilhada de vídeos, direcionado para o empoderamento de grupos sociais historicamente excluídos, como usuários dos serviços de saúde mental, afro- descendentes e indígenas. 

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