A importância da escuta qualificada

Por Verônica Mº da S. Brandão¹

Certa vez, quando iniciava os estudos da graduação, fui indagada da seguinte forma: “Mas você vai ficar o dia todo sentada, só ouvindo as lamentações das pessoas? E depois, vai ter que dar um conselho para a pessoa resolver o problema? Assim é fácil! ”

Não, não é fácil!

Ouvir é uma das mais difíceis artes.

Mas é acolhedor, é prazeroso, é solidário, é gratificante e vai muito além de estar ali, prostrada ouvindo lamentações. Vai muito além de aconselhar, inclusive. E esse além vai tão distante que só o paciente consegue alcançar, quando vai de encontro com a sua própria natureza.

É uma escuta que ouve, uma escuta empática, uma escuta que analisa e faz vir à tona aquilo que o paciente tem em sua totalidade. E essa escuta requer muito mais do que tempo, ela requer dedicação, responsabilidade e qualidade.

Ouvir o paciente é estar voltada também para o que ele tem de social e coletivo, mas principalmente ao que ele tem de pessoal e, por vezes, intocado.

Não é sobre aprender a realidade do paciente e sim sobre estar na realidade dele. Aqui, a relação terapêutica precisa ser bem estabelecida para que a troca seja uma relação de confiança.

Ouvir o paciente nos ajuda a investigar quais os pensamentos, sentimentos e crenças negativos ou destrutivos o estão impedindo de realizar com êxito suas tarefas. Mas, para isso, ela precisa ser uma escuta bem posicionada, uma escuta dedicada a analise, preparada, inclinada a descobrir as causas para as dificuldades comportamentais que o paciente apresenta.

A fala do paciente precisa ganhar visibilidade por parte do psicólogo.

Ouvir o paciente requer o entendimento da nossa diversidade e sobretudo, a aceitação de que somos humanos. É compreender, sem supor que o sofrimento ali sentido seja exagerado ou inexistente. É se permitir ouvir.

Ouvir precisa ser real!

O ato de ouvir o paciente exige doação do psicólogo. Ele precisa livrar sua mente das interferências do seu próprio pensamento para então entrar na fala do paciente, para ser parte daquela realidade. Pois pela escuta qualificada das queixas do paciente podemos ajuda-lo a encontrar suas próprias respostas contribuindo para o seu desenvolvimento.

O escritor e orador J.Krishnamurti afirmava que “Escutar é um ato de silêncio”. É preciso, por parte do psicólogo, uma atitude silenciosa na qual ele escuta atentamente o paciente, para que uma devolução positiva seja alcançada. O psicólogo precisa se calar internamente.

O momento pela busca da psicoterapia, a decisão por iniciar as sessões é geralmente um momento confuso, delicado e, portanto, requer acolhimento. O paciente busca ser ajustado a sua própria realidade, ele precisa ir de encontro consigo mesmo e isso é o que ele espera como retorno da sua fala. O psicólogo precisa perceber além do diagnóstico apresentado pelo paciente, compreendendo como aquela queixa se desenvolveu, como é mantida e o que ela traz ao paciente enquanto dificuldade comportamental.

Cabe ao psicólogo fazer as intervenções necessárias sem deslegitimar a fala do paciente, pois é muitas vezes através da fala que o paciente encontra sua autonomia emocional.

Boa parte das desistências da psicoterapia têm como causa a falta de empatia com o terapeuta. Em muitos casos o paciente não se sente acolhido em sua totalidade, não vê sua fala sendo reconhecida e tratada pelo psicólogo como uma fala a ser trabalhada.

Há pacientes que apresentam dificuldade de se expressar através da fala, por diversos fatores e limitações, mas todos os casos exigem uma escuta apurada quanto aquilo que foi dito, pensado ou até mesmo não dito.

Enquanto psicóloga, me deparo com situações em que o paciente busca ser ouvido. Já enquanto psicóloga negra, atuo com pacientes em busca também e, principalmente, de identificação, de referência.

O paciente negro, assim como os demais pacientes, traz ao consultório suas dúvidas, inquietações, angústias, aflições e frustrações, e até mesmo quando sua queixa vem através da felicidade e da satisfação, algumas vezes ela se traduz de outra forma naquela realidade e o paciente precisa de ajuda e orientação para lidar com a questão. E é isso que falta, a psicologia não se debruça na saúde mental étnico-racial, os profissionais não são preparados para a escuta das questões raciais de forma acolhedora. O paciente negro, em inúmeros casos, não se sente acolhido.


“Eu fiquei me questionando se não estava errado o que duas psicólogas disseram, que não existia racismo e que as dores que eu sentia eram criações da minha cabeça. Achei, por muito tempo, que estava totalmente louca e duvidei da veracidade dos fatos que vivi. Fiquei achando que nada havia realmente acontecido e eu estava com um problema ainda mais grave…só quero voltar a fazer terapia com psicóloga negra, quem sabe assim a profissional tenha mais empatia e até tenha vivenciado fatos similares aos que me agrediram. ” Conta X

O paciente negro acredita e aposta que sendo o psicólogo também negro, será mais fácil ser compreendido do que sendo este psicólogo não negro. Esse é um discurso bastante comum no consultório e é justificado pelo paciente como resultante da negação dos psicólogos não negros quanto as queixas de ordem racial, inclusive, há casos em que o paciente se queixa de ter seu sofrimento diminuído pelo psicólogo ou tido como inexistente.

Isso não significa que um psicólogo não negro não consiga oferecer ao paciente negro uma escuta qualificada para a sua queixa, mas no que diz respeito a demanda racial, devido à falta de contato direto com essa questão, a escuta acaba comprometida.

Ser psicóloga é fazer do paciente a parte essencial do processo. É ter a responsabilidade de conduzi-lo na busca das melhores respostas pelo seu ajustamento.

Hoje, sendo inclusive a maior parte dos meus pacientes negros, ao vê-los sentirem-se reconhecidos e atendidos em suas queixas tenho a certeza de contribuir positivamente para o esclarecimento de questões que antes estavam, por algum motivo, distorcidas trazendo sofrimento ao paciente. Além da satisfação em vê-los fazendo incríveis descobertas daquilo que antes estava escondido ou latente.

Uma escuta qualificada acaba por oferecer ao paciente a possibilidade de realizar novas experiências de maneira apropriada as suas emoções. O paciente é trazido a participar efetivamente daquilo que o satisfaz, que o realiza.

Paciente e psicólogo devem caminhar juntos, buscando, cada um de acordo com seu papel terapêutico, alcançar sucesso com a qualidade desta relação onde a fala e a escuta são pontos de partida para o sucesso.

Há quem diga que psicólogos aconselham, então, como psicóloga posso te aconselhar, caro leitor, a mergulhar no seu próprio mundo através da psicoterapia.

 

¹Verônica M° da S. Brandão, psicóloga formada pela Universidade Veiga de Almeida. Atuou em hospital por 6 anos e hoje atende crianças, adolescentes e adultos em consultório, na abordagem Cognitivo Comportamental. Realiza palestras sobre os impactos do racismo na vida psíquica do paciente e oferece atendimento à instituição para crianças com câncer.

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