A SAÚDE MENTAL DOS NEGROS E NEGRAS NA UNIVERSIDADE

Por Laila Resende¹

 

Para falarmos sobre a saúde mental dos negros e negras na universidade é preciso falar sobre ser uma pessoa negra no Brasil. O Brasil é um país racista, que sustenta o mito da
democracia racial. Democracia racial é a ideia de que todos as pessoas, de todas as raças, vivem harmonicamente. Mas se observarmos, por exemplo, o número de pessoas negras que ocupam cargos de gerência em médias e grandes empresas, em comparação com pessoas brancas, teremos um número ínfimo. Ao passo que, se observarmos o número de pessoas negras desempregadas ou prestando serviços análogos a escravidão veremos que essa pirâmide se inverte.
Ser negro no Brasil é enfrentar o racismo e suas articulações, além de ser historicamente um desafio. Porque sendo eu negra e mulher, enfrento o racismo e o machismo. Um negro LGBT, o racismo e a LGBTfobia, um negro de religião de matriz africana, o racismo e a intolerância religiosa. Lutamos diariamente por direitos básicos, inclusive o direito à vida. Hoje se fala em genocídio do povo negro, onde pessoas negras são sistematicamente assassinadas. Mulheres negras as maiores vítimas de feminicídio, violência doméstica, violência obstétrica. Os jovens negros são alvo preferencial de violência policial. Os negros LGBT’s são principais vítimas de LGBTfobia. E ao mesmo tempo em que temos nos organizado para garantir nossos direitos, avançar em ações afirmativas, uma onda reacionária também tem crescido, avançado e ameaçado todos os direitos conquistados a
muita luta e a muitas vidas. Tendo como pano de fundo o que é ser negro/negra no Brasil, já temos pistas do que significa ser um negro/negra na Universidade. Ser negro na universidade exige grande esforço, de naturezas diversas. Faz-se necessário esforço financeiro para garantir a permanência naquele espaço, independente da Instituição ser pública ou privada. Também se faz necessário um esforço subjetivo, porque muitas vezes vamos ouvir piadas de professores e colegas, não teremos nenhuma indicação de referencial teórico de intelectuais negros e negras, teremos nossa fala deslegitimada, nosso saber questionado, subjugado.
A Universidade exige também um esforço intelectual. Se o estudante negro/negra veio de
uma escola pública e era considerado um estudante mediano, a chegada na Universidade pode despertar sentimento de inferioridade, de menos valia, por não ter tido acesso a mesma educação de qualidade que algumas pessoas ali tiveram. A universidade exige e muitas vezes não se está familiarizado com o espaço, com a linguagem, com as formas de avaliação. Ou mesmo quando o negro tem condição financeira favorável e as vezes não se lia como pessoa negra, mas quando chega na Universidade tem um impacto porque ali ela é lida como negra e passa a observar uma série de opressões que vivenciou ao longo da vida, como a piada racista, o apelido racista.
Tudo isso gera tensão, são fatores de adoecimento mental e demanda nosso olhar cuidadoso. O acesso à universidade não garante nossa permanência.
Precisamos nos preparar e entender que o enfretamento é individual, mas também coletivo. É coletivamente que a gente se organiza, se fortalece, se empodera.
É importante que busquemos conhecimento acerca da história do povo negro, da cultura, dos ícones. Precisamos nos dedicar mais para preencher um vazio acadêmico, isso faz com que nos afastemos das pessoas o que pode gerar um sentimento de solidão, inadequação. Não se afastar totalmente de nossos amigos, pessoas próximas e familiares, pode ser também um coadjuvante para este momento.
E por fim, precisamos reconhecer e aceitar quando precisamos de ajuda. Dentre os vários estereótipos que recaem sobre as pessoas negras, os da força física e emocional são ainda muito presentes. Tais afirmações são interiorizadas pelo sujeito e isto dificulta muito a busca por ajuda mesmo, quando a pessoa encontra se em seu limite. É preciso compreender que buscar por ajuda profissional não faz de ninguém uma pessoa fraca, ao contrário demostra amor próprio e autocuidado.

E que tenhamos em mente que não morremos só de tiro.

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2 comentários sobre “A SAÚDE MENTAL DOS NEGROS E NEGRAS NA UNIVERSIDADE

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