Vozes íntimas do Pensamento: processos de cura

Por Sumaia Bueno

 

Às vezes é necessário receber um tratamento terapêutico doloroso para ter
consciência de algo que só depende da própria pessoa.
As lágrimas descem sem controle… As mãos formigam…tontura… e ao mesmo tempo
alívio, satisfação…vergonha e gratidão! Produziu muita dor, a ponto de fazer a pessoa
sair do consultório, sem a queixa inicial.
Às vezes é necessário a ausência para que haja o encontro…
Ser humilde é dizer no corredor do ambulatório de um hospital psiquiátrico, que você é
profissional de saúde, e que também necessita se cuidar. O tão famoso autocuidado
minimizado e justificado com a falta de tempo, trabalho excessivo, etc.
Mas a voz da experiência diz, “quanto mais esforço, mais cuidado, mais prevenção”.
Fácil? Não. Trata-se de questão de sobrevivência e de qualidade de vida!
Caramba!
Como cuidar de outras pessoas sem se cuidar?
Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu.
E as demais pessoas ao seu lado, que se posicionam à sua frente ou atrás de você?
Mas a cobrança é de estar consigo mesma e não se anular. Emoção? Sim! Inúmeros
momentos de alegria e satisfação…Viver em uma cidade que beira ao mar, em uma casa
ou apartamento acolhedores, ter boa qualidade de vida, ótimas amizades, um contrato de
trabalho, todas essas são situações que se traduzem em bem-estar.
Contudo, o que adoece é sentir raiva e não poder expressá-la, impotência, frustração, a
não elaboração de algumas perdas, baixa autoestima, ocasionando consequências
psicossomáticas.
Quanto custa acordar mais cedo para caminhar, ir à praia, mesmo antes de começar a
jornada de trabalho, ou no final do dia, ou nos fins de semana?
Ah! Custa… quanto custa, dizem muitas pessoas nas consultas médicas e tratamentos
com terapias complementárias. Muitas vezes pensam que estariam descansando quando
ficam mais tempo deitadas na cama, ou prostradas num sofá assistindo televisão,
olhando durante horas as redes sociais para distrair suas mentes, ou comunicando-se
pelos aplicativos de mensagens dos ditos “celulares inteligentes”: Autoengano.
Sim, puro autoengano! As pessoas confessam suas atitudes de inércia, sem se darem
conta do quanto se prejudicam.

Quantas horas, dias e meses perdem com essas atividades “do autoengano”, para não
entrarem em contato com as suas reais dificuldades e desejos???
Expressam que seus maiores sonhos são: ler, assistir bons filmes, ir ao teatro, viajar a
passeio, etc…
Para que não usar esse tempo dedicando-se a estudar, que é algo que realmente estimula
a mente, produz prazer e conhecimento?
Pois é, raciocinamos, mas como dar movimento às ações, que impulsionariam a
mudança significativa?
Contudo, sentem cada vez mais, se sensibilizam muito mais com a desgraça dos outros,
com a pobreza, com a miséria humana…desastres ecológicos, guerras, terrorismo.
Muitas sofrem quando ouvem notícias de feminicídio, violência infantil, assassinatos de
jovens negros, de um irmão em situação de rua.
Como elaborar, integrar e digerir tudo isso, quando muitas vezes também estão
sentindo-se fragilizadas, sozinhas, desejando profundamente a presença de seus pais e o
aconchego do colo materno? Por que nem sempre há companheiro ou companheira
afetivo para compartilhar essas angústias? Como não adoecer?
Será mais fácil agir com frieza, distância, sem empatia para não se envolver ou não
fazer amizades? Será que resolve alienar-se e pensar que essas situações atingem muitas
pessoas, além dela mesma? Ou o melhor, é parecer ser outra pessoa?
As identidades são construídas. E com as vivências dos lugares vividos, re-construídas,
re-inventadas e integradas.
Mas se nasceram ou vieram de outros lugares, o que ocorre?
Sua identidade é transnacional? Que será isso? Um novo conceito? São migrantes?? É
assim que se sentem, no seu próprio país, mesmo sendo de outra região do Brasil?
É uma sensação de quem não é daqui e já não é de lá. Sabe como é, algo relacionado
com o pertencimento!
As palavras de ordem são: Resiliência e Resistência!
Mas do que era mesmo que falávamos?
De outras vozes.
Como manter a saúde física, mental (emocional), espiritual e social?
Saúde espiritual, tema complexo. Pois se a pessoa não é praticante das religiões
Católica ou Evangélica, e nem Espírita (Alan Kardec), que são aceitas socialmente,
pode ser discriminada por se identificar com uma religião de Matriz Africana, que no
caso das pessoas negras, faz parte de sua ancestralidade. Imaginem…!!!!

Contudo, a espiritualidade é muito mais que estar vinculada a uma religião, mas o
Racismo está tão arraigado… Como viver, sem poder expressar livremente suas crenças?
Produz uma certa “Esquizofrenia social”, fazendo com que as aparências ganhem valor
imaginário e confortável!
Outra voz fala sobre a perda ou a distância dos filhos. Algo terrível para uma mãe ou
pai. Produz uma ruptura do vínculo emocional e grande dificuldade para manter o
equilíbrio psíquico. E cada vez mais, temos famílias que passam por separações desses
laços, afetando todos os âmbitos da vida.
Então qual era mesmo o conceito ampliado de saúde para a OMS?
Dia 27 de Agosto é o Dia do Profissional de Psicologia. Somos na grande maioria
mulheres exercendo esta Profissão, e podemos tentar desmistificar nosso papel,
ajudando a população a deixar de pensar que temos “bola de cristal”, que só tratamos
pessoas “loucas” (com Transtornos) ou que estamos totalmente resolvidas internamente.
Com o relato das vozes acima transcritas, quis deixar explícito o quanto de humanidade
existe em nós psicólogas e psicólogos, já que às vezes também somos pacientes. A
diferença primordial é a posição em que nos colocamos quando estamos atuando, e a
consciência de quando há transferência e contra-transferência.
Essas vozes são reais. Atingem muitos profissionais, principalmente do sexo feminino.
As respostas acontecem quando nos colocamos disponíveis para mergulhar no nosso
interior, e retirando as defesas que nos impedem de crescer e responsabilizar-nos por
nossas vidas.
Um alerta: o autocuidado é imprescindível e necessário, principalmente para sermos
coerentes com a metodologia que utilizamos para atender pessoas, na clínica, no âmbito
escolar, no social, na saúde, em organizações não governamentais, empresas privadas,
etc. Porém, não podemos abafar os temas transversais que permeiam a saúde.
Onde houver um ser humano necessitando de ajuda, lá estaremos atuando com as nossas
ferramentas técnicas. Mas sem a nossa identidade e coração (alma), não seremos
verdadeiras/os, com eles e muito menos com nós mesmas.
Coerência, métodos, técnicas, autocuidado, autoestima, podem produzir saúde e paz
interior.
Porém, nem sempre é fácil manter-se consciente em todos os momentos e afirmar sua
identidade, por isso a Psicoterapia é necessária em muitos casos e etapas da nossa
trajetória.
Eu só posso ser eu mesma, quando sou verdadeira e congruente com os meus
princípios éticos e morais.

Gratidão às pessoas que se permitiram navegar nesse trabalho de ampliação da
consciência por meio do diálogo terapêutico.
Parabéns a todas e todos os colegas, especialmente às Psicólogas Negras!
AFRONTEMOS! Essa é a minha voz!

Sumaia Bueno Baptista,
Licenciada em Psicologia há vinte e nove anos. Mestrado em Psicologia
Social e Especialização em Terapia Gestalt
JP/PB, agosto de 2017

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