Conversando sobre o Apoio Psicológico no Serviço de Proteção Social.

Por Debora Elianne

O trabalho da (o) Psicóloga (o) inserida (o) no cotidiano do SUAS –
Sistema Único de Assistência Social, traz muitos questionamentos, tanto para a
(o) Psicóloga (o) que realiza esta atividade, bem como para usuários dos
serviços e profissionais da rede de atendimento. A pergunta que
cotidianamente se apresenta às (aos) Psicólogas (os) desta área é – Se a (o)
Psicóloga (o) não faz terapia, ela faz o que?
Infelizmente, algumas profissionais da psicologia, por não realizar
psicoterapia nos espaços sociais, tendem a sentirem-se fora da sua área de
formação e atuação, pois não consideram o que realizam cotidianamente no
âmbito do SUAS como um pratica psicológica legítima.
Assim sendo, neste texto, busco compartilhar um pouco das reflexões
iniciais que venho fazendo sobre o lugar e o fazer da psicóloga no SUAS, tendo
como referência o trabalho realizado junto à equipe do Núcleo de Proteção
Jurídico-social e Apoio Psicológico, cujo objetivo é atender famílias e indivíduos
em situação de violência/violação de direitos.
O trabalho da (o) Psicóloga (o) no âmbito do SUAS, tem como referência
a perspectiva do trabalho social e socioeducativo junto a famílias e/ou
indivíduos tal como preconiza a PNAS – Política Nacional de Assistência Social.
A consideração destas premissas coloca em evidência o fato de que, o Apoio
Psicológico neste contexto, não pode ter como direcionamento o processo
clínico-psicoterapêutico.
Assim, o Apoio Psicológico no âmbito da proteção social tem como
objetivo oferecer a todas as pessoas que procuram o serviço, um espaço
seguro de acolhimento, onde todas as demandas subjetivas e objetivas podem
ser trazidas, no primeiro momento, sem a exigência de um foco específico.
Compreende-se que a possibilidade de poder falar sobre o que se sente
e como se sente e, a oportunidade de ter alguém disponível para uma escuta
singular e sem julgamento é um passo fundamental no processo de orientação,
acompanhamento e encaminhamento na esfera socioassistencial, na medida
em que podemos observar desde o princípio às situações de vulnerabilidades
que norteiam a vida das pessoas que procuram o serviço, sejam elas,
vulnerabilidades psicológicas, econômicas, sociais, entre outras.
Deste modo, qualquer coisa que esteja incomodando a pessoa que
procura um serviço socioassistêncial, é uma questão importante para o
profissional que atua nesta área, e a compreensão desta, sempre deve levar
em consideração, tanto a fala da pessoa, bem como, o contexto em que a
mesma encontra-se inserida, incluindo os aspectos de vulnerabilidades e as

situações de violência/violações de direitos existentes na dinâmica familiar
e/ou comunitária.
Isto significa que a atenção da (o) psicóloga (o) nestes contextos, deve
estar voltada principalmente para o mundo em que a pessoa vive e a
percepção acerca do lugar em que esta pessoa ocupa neste mundo, não
podendo, portanto, limitar seu olhar aos aspectos comportamentais de forma
isolada aos acontecimentos da vida, tais como as questões políticas, sociais e
econômicas que permeiam a vida de todo cidadão. Se o País vai mal, a vida das
pessoas também caminha mal e o impacto disso tudo pode gerar uma série de
consequências que precisam ser compreendidas de forma ampliada, tanto para
o acesso e garantia de direitos, bem como para a proteção social.
É necessário muito cuidado e atenção para a oferta do apoio psicológico
nestes espaços, pois se não nos atentarmos para os aspectos globais
(subjetivos e objetivos) presente nas demandas responsáveis por trazer as
pessoas ao atendimento, corremos o risco de individualizar a questão e
culpabilizar o sujeito do sofrimento, ao mesmo tempo em que perdemos a
oportunidade de refletir sobre o processo vivido e entender que às vezes
fazemos algumas escolhas justamente pelo fato de nunca termos sido
apresentados a outras possibilidades de escolha e, que às vezes agimos de
determinadas formas, porque esta é a única forma que conhecemos até o
momento.
Isso significa que no contexto social o Apoio Psicológico, além de lugar
de acolhimento as demandas subjetivas e objetivas, também deve ter uma
característica informativa e educativa, isto é, além de acolher o sofrimento
vivenciado, por exemplo, por uma mulher vitima de violência doméstica, é
necessário explicar para ela o que é a violência doméstica, quais são os canais
de denúncia existente, quais são os espaços de proteção existente, oferecendo
subsídios para que esta mulher possa criar as estratégias necessárias para sair
desta situação, considerando principalmente sua própria realidade. Faz-se
necessário, sempre que possível o trabalho educativo com a comunidade para
que saibam identificar este tipo de situação na sua região de moradia e auxiliar
as pessoas que necessitam de ajuda e proteção. Cabe ainda um trabalho com a
família, a fim de refletir sobre os aspectos culturais e outros, que envolvem a
compreensão de temas tão complexos como este. Ufa!!!!
No processo de responsabilização dos sujeitos no contexto do SUAS, o
apoio psicológico também se mostra de forma muito peculiar, porque
responsabilizar difere-se do julgar que se intenciona a punição. Trabalhar o
processo de responsabilização focado na proteção social é dar ao sujeito a
oportunidade de poder ser diferente é dar as pessoas que estão no entorno da
convivência a possibilidade de conviver com um sujeito que teve a
oportunidade de, acolhido e orientado, se permitir colocar-se no lugar do Outro
e repensar suas atitudes e ações.

Cabe ainda lembrar que muitas vezes, as pessoas não se reconhecem
como alguém inserido em um contexto de violência, seja como autor da ação
ou vitima desta e, nestas ocasiões, o apoio psicológico é fundamental no
processo de reconhecimento e fortalecimento para a efetivação dos
movimentos e ações necessárias.
Se alguns conceitos e paradigmas não forem quebrados e reconstruídos
sobre a ótica do respeito, do cuidado e da proteção, sendo reconhecidos os
princípios da igualdade e equidade, continuaremos tratando como individuais
fenômenos que são de ordem social e coletiva e, novamente entregaremos a
culpa do processo vivido para o sujeito em sofrimento. Para transformar o
mundo e a vida, sair da caixinha é fundamental, por isso, psicólogo também
atua na rua, mobiliza pessoas e fortalece coletivos!!.
O Apoio Psicológico pode ser oferecido de diferentes formas no
contexto social, seja no atendimento individual, na orientação familiar, nas
atividades grupais, em visitas domiciliar, nas oficinas de convivência e até
mesmo nas atividades externas. Seja de forma pontual ou continuada, tenha
sempre a certeza de que o apoio psicológico é eficaz e apesar desta
intervenção não ter um direcionamento clínico, seu potencial terapêutico é de
longo alcance e fundamental no processo de superação da situação
vivenciada.
Por isso faz-se necessário à compreensão de que o Apoio Psicológico é
uma pratica psicológica interventiva, necessária, legítima e fundamental nos
serviços socioassistenciais e seu caráter acolhedor, informativo e educativo,
exige do profissional de Psicologia investimentos continuados de cuidado e
formação, uma vez que seu cotidiano de trabalho é permeado por relatos de
sofrimento, violência e violações de direitos, que em sua maioria, jamais foram
apresentados ao longo do processo de formação.
Trabalhar no contexto do SUAS, exige da (o) Psicóloga (o) disponibilidade
para aprender a partir do relato das experiências vividas pelas usuárias dos
serviços, a fazer a critica necessária para dialogar com as teorias e métodos da
Psicologia e outras áreas do saber constantemente, conhecimento suficiente
para apresentar canais de denúncia e proteção, sensibilidade para lidar com
questões humanas urgentes e emergentes e habilidades para trabalhar com os
processos de reconhecimento, fortalecimento e (re)significação da situação
vivida.
O Apoio Psicológico no SUAS convoca a (o) Psicóloga (o) a um olhar
contextualizado sobre o mundo-vida de cada sujeito que se apresenta, onde
histórias parecidas exigem olhares particularizados porque os sentidos e
possibilidades serão responsáveis por delinear o processo singular de
acompanhamento e resolução da questão.

Por fim, o Apoio Psicológico no SUAS exige da (o) Psicóloga (o) a
compreensão de que as trajetórias são construídas de forma compartilhada,
entretanto, o desfecho é escolha do sujeito, da família que vivencia a situação.
Nesta perspectiva, compete a (ao) Psicóloga (o) apresentar novos horizontes,
promover a abertura de oportunidades, apresentar novos coloridos, seguir
junto nos primeiros passos, encorajar o caminhar autônomo e, fomentar
condições para que sempre exista possibilidades de escolha, nas diversas
situações impostas pela vida.
Por esses e tantos outros motivos é que mantenho firme a convicção de
que o SUAS também é lugar da Psicóloga exercer seu fazer!
Termino este texto com um convite necessário a nossa categoria
profissional. Vamos continuar conversando sobre o nosso fazer no SUAS?
Debora Elianne Rodrigues de Souza (deboraelianne@yahoo.com.br),
Psicóloga, Mestre em Psicologia da Educação pela PUC/SP, Especialista em
Psicopatologia e Saúde Pública pela FSP/USP. Gerente de Serviço
Socioassistencial e Psicóloga colaboradora no Projeto de Inclusão Social
Vivencer – http://www.vivencer.com.br e idealizadora do Projeto de Intervenção
Psicoeducativa – “Conversando sobre…”

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