Um corpo limitado, desconhecido e não cuidado.

Por Tainã de Palmares¹

Não é novidade que vivenciamos interinamente um processo de combate as desigualdades. Nascer negrx, ou melhor, perceber-se enquanto negrx e afirmar essa negritude é carregar consigo uma militância compulsória, violenta e desgastante, mas, fazer dessa uma maneira de garantir os direitos das minhas pares, ou apenas, dizer que os conheço muito bem.

Carregar um corpo limitado, é perceber que não nos resta espaço para além das fronteiras da subserviência. Ainda que, a sua trajetória seja brilhante, e que todos digam o quão inteligente, sagaz ou produtiva você “possa ser” nessa perspectiva futura, pois ainda não o é, alcançar ou apenas tentar alcançar uma realidade diferente é quase impossível. Nada será suficiente, porque mesmo sendo um corpo dotado de intelectualidade, perspicácia e lucidez, será apenas um corpo negro, arrogante e no lugar errado.

Compreender-se dentro de um corpo desconhecido, é justamente não compreender-se. Não saber de suas especificidades, não chegando muito longe, é não ter respostas para a pergunta “Quem sou eu?”. Um corpo que não sente prazer, porque experimenta sensações de morte-vida constantemente. Um corpo ao qual não se tem referências do ser belo, do ser intacto.
Um corpo monstruoso, porque quando é visto causa estranhamento, medo. Um corpo sempre no lugar da violência potencial, ainda que seja um corpo recém concebido ao mundo.

Conduzir um corpo limitado e desconhecido é acreditar que esse não precisa de cuidado. Ao passo que, não é prioridade entender esse corpo, também não se faz necessário cuidar desse e das miudezas que esse traz consigo. Se eu não conheço eu não prezo. Se não me conheço não me cuido,  e, se não me cuido, não sei praticar o cuidado com os demais.

Falar do corpo negro como apenas um corpo, pode causar estranhamento. Perceber um corpo como apenas um molde de massa e músculo é negar que entre as veias pulsa sangue. No sentido mais amplo que essa afirmação pode trazer, é negar que um corpo negro carrega subjetividade.

No mesmo instante, parece paradoxal tratar esse corpo dessa maneira distante, tendo em vista que socialmente o corpo negro é um corpo público e subserviente. Esse corpo tratado como a extensão das ruas, onde não há restrições para pegar, vilipendiar, violar. Esse corpo sempre apontado para o lugar da servidão, que tem que estar disposto a acatar, ouvir, obedecer.

Transitar nesses dois espaços é cruel para o sujeito que carrega esse corpo negro. Sim, existe um sujeito nesse corpo negro. Os impactos de estar nesse lugar são devastadores. Porque é sofrido estar no lugar da marginalização, da invisibilidade, da pobreza, paralelo a isso, tentar alcançar a dignidade é tão sofrido quanto, porque todos os olhares apontam a porta da rua, como sendo essa a única e mais pertinente saída.

Como pensar então essa Saúde mental quase inexistente? Como pensar essa Saúde Mental por diversas vezes enlouquecida?

Negar os lugares preexistentes para nós negras e negros causa um estranhamento enorme tanto para nossos algozes, que não admitem nossos voos mais altos, quanto para nós que, vivenciamos a descredibilidade quanto as nossas conquistas. Trazer nossas pautas enquanto negritude e perceber que esse fator potencializa as outras opressões é demarcar um espaço de guerra, tocar na ferida de muitos inclusive e primeiramente nas nossas, e, perceber que falar sobre Saúde Mental e não tocar na desconstrução/reconstrução desse corpo negro é uma complexidade tremenda.

Tão complexo quanto perceber que o adoecimento está para nós, povo preto está diretamente ligado à nossa sobrevivência, tendo em vista que ainda precisamos lutar diariamente para garanti-la.

¹Tainã Vieira de Palmares, Psicóloga, Feminista Negra, Pós Graduanda em Psicopedagogia Institucional e co-fundadora/co-diretora da Rede Dandaras.
²Imagem da internet referente ao Guerreiro Africano que teve seu corpo dissecado e exposto em museu por cerca de 80 anos. Sem nome e sem história, esse, teve seu corpo exibido como um troféu.

 

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