130 anos de abolição: “Entre reconhecer e se libertar do desamparo”

Por Samanta Santos Fonseca,

 

 

Desamparo: essa palavra acelera meu compasso ao imaginar que minha mais longa ancestral paterna foi sequestrada e jogada ao fundo de um navio tumbeiro. Desamparo ao dar voltas e mais voltas no Baobá para esquecer se de sua identidade. Na travessia do Atlântico, estava solitária mesmo não estando sozinha, e foram meses sendo dilacerada em sua alma, marcada em seu corpo e exposta as mais cruéis e vorazes desumanidades. Em solo estrangeiro, território brasileiro se viu mais uma vez desamparada. As mais cruéis e refinadas formas de violência física, sexual, moral e psicológica lhe foram impostas. Era uma mulher, mas era vista como algo qualquer. Estava entre seus pares: homens e mulheres que também tiveram sua liberdade ceifada. Tendo se relacionado “com seu preto” (forma carinhosa de falar), descobria da pior forma que ele não era “seu”, era só mais um objeto, uma ferramenta de um fazendeiro. Tendo engravidado de “sua” criança, descobriu que esta criança também não era “sua”, era vendida, castigada e humilhada a cerca de “trabalhos”. Tendo a si, percebia que nem o “si” lhe pertencia, pois era objetificada, hipersexualizada e assassinada. Desamparada.

Com tudo isso, ela poderia esquecer sua liberdade?! Não!!!

A liberdade estava em sua raiz, sua essência. As voltas dadas no Baobá não puderam apagar sua identidade e lembranças afetuosas de outrora. Foi através dessa mulher: da minha, da sua matriarca que temos esse sangue que pulsa, vibra, arde e inflama por liberdade. O desamparo aprendido e transmitido geração a geração nestes 388 anos de escravização humana dos povos africanos no Brasil não foi capaz de apagar sua liberdade.  Ela sabia que este desamparo não lhe pertencia, que era imposto. Ela sabia que as mais jovens poderiam aprender mais sobre a liberdade do que viver o desamparo. Ela intuía que a travessia pelo Atlântico não poderia afogar a esperança de um futuro de liberdade para suas crianças. Crianças negras, meninas negras que cresceram que formaram suas famílias, que tiveram seus filhos/as, netos/as, bisnetos/as. Que seguiram com um companheiro ou com a força de uma guerreira, sendo pai e mãe para sua/s criança/s.

O desamparo é um “grilhão” que traz um profundo sentimento de estar e de se sentir abandonada, de não ter cuidados éticos e essências à vida, de não ter cuidados amorosos, afetuosos, fazendo emergir a sensação de solidão, de vulnerabilidade, com um intenso e avassalador sentimento de medo, tristeza e impotência. Em 388 anos de escravização de mulheres africanas lhes impuseram a mais intensa e devastadora sensação de desamparo. E não era para menos. Não quero com isso enquadrar todo sofrimento em uma única palavra. Não é essa a minha intenção! Mesmo porque é impossível nomear o sofrimento que nossos ancestrais tiveram. Mas, pretendo chamar a atenção para o quanto o desamparo ainda nos persegue nestes últimos 130 anos de (falsa) abolição.

O desamparo está no cerne da construção de uma sociedade que é racista, machista, patriarcal, e sexista. Está na estrutura, sendo vivenciado na falta de educação, na impossibilidade de ter e de fazer manutenção da saúde, na falta de segurança e trabalho, no não reconhecimento e valorização da identidade da mulher negra.

É difícil quebrar toda a estrutura de uma única vez, é verdade! Mas, já fizemos alguns, estamos fazendo outros, e podemos fazer muito mais “buracos” nessa estrutura! Primeiro reconhecendo o desamparo que nos foi ensinado. Tarefa fácil?! Não, mas possível! Tendo reconhecido perceba que você é muito mais do que o que seus medos e receios querem que você acredite! Perceba que, mesmo com todas as suas dificuldades, você resistiu, resiste e persiste até aqui, por si, por todas as anteriores e por todas as que virão. Invista em si! Invista em nós! Invista no amor por você, no amor por nós! Se veja e se olhe no espelho. Olhe com a alma, olhe fundo em seus olhos, perceba e REconheça o espírito da guerreira, daquela que primeiro foi desamparada, mas resistiu, encontrando forças para seguir e acreditar, acreditar que você a REconheceria em si!

A estrutura é real e concreta, mas podemos (PODEMOS!) fazer “pequenas fissuras” que permitam um novo olhar para nós, para as nossas. Lançando luz para a reconstrução de uma sociedade igualitária. As voltas no Baobá não fizeram que a minha, que a sua matriarca desistisse de seu sonho de liberdade. Somos provas vivas disso! De algum modo ela intuía e lutava pela possibilidade real de conseguirmos essas “fissuras” na estrutura. Levando o amparo, o afeto, o cuidado e a presença. Levando o acolhimento e a potência de se sentir livre, de viver livre, e nessa liberdade, ser o que se sonhar ser!

Mesmo porque, não daria mesmo para esquecer-se, NOS ESQUECERMOS, de nossa liberdade!

 

 

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