Popularização da internet, reconhecimento identidades raciais e desafios para a Psicologia

Por Livia Arrelias

    O racismo é uma ideologia de poder e opressão que aloca socialmente os indivíduos de acordo com suas características fenotípicas em raças superiores e inferiores. Enquanto elemento estruturante da sociedade brasileira, ele se manifesta em todos os âmbitos: relacionais, institucionais, políticos, culturais, sociais, físicos, territoriais, emocionais, espirituais, psicológicos, dificultando a compreensão de vivencias há muito denunciadas pelo movimento negro e impedindo a diminuição das desigualdades. Subjetivamente falando, ele aprisiona as pessoas negras e indígenas em formas de vida que estreitam suas possibilidades de construções relacionais saudáveis.

    É bastante cômodo para grupos racialmente privilegiados substituir as discussões sobre violências raciais por violências sociais pois, assim, mantém-se a lógica da falsa democracia racial em que vivemos como país. As violências raciais que estão na base da construção da vida social brasileira remetem sempre os grupos populacionais negros e indígenas aos piores índices de qualidade de vida e justiça social, como vem sendo sistematicamente indicado por pesquisas e produções acadêmicas, de órgãos de classe, como o CFP1, e de órgãos estatais oficiais, como o IPEA2 e o IBGE. A título de ilustração, os dados de 2018 do Atlas de Violência do IPEA indicaram o crescimento da vitimização de diferentes grupos populacionais negros (mulheres, homens jovens…) em todos os recortes possíveis, enquanto as populações brancas tiverem diminuição significativa nestes mesmos índices. Vale ressaltar que as populações indígenas sequer aparecem nestes dados. As reflexões e discussões sobre estes resultados possuem foco nas vítimas e muito pouco em quem se beneficia – direta ou indiretamente – destas situações de desigualdades.

    O que estas publicações ainda deixam de fora é uma discussão mais consistente acerca da racialização das populações brancas, o que leva a supor que se trate do grupo “humano por excelência”, tal como definido de maneira contundente pelo próprio mito da democracia racial. Ou seja, ao não indicar explicitamente os lugares de privilégio ocupados pelos grupos brancos – ou seja, não racializá-los – estes órgãos oficiais e estudos acadêmicos acabam por manter um foco na subalternização de pessoas negras e indígenas, como se lutar contra o racismo dependesse exclusivamente de denúncias e intervenções apenas nestes grupos.

    A intensidade dos debates, discussões e reflexões a respeito da temática racial verificada atualmente acontece, em parte, devido a popularização recente da internet e do uso cada vez mais frequente das redes sociais como meio de veiculação de ideias e informações em uma quantidade muito grande e em uma velocidade nunca antes vista. Isto pode significar tanto dificuldades em acompanhar o volume de informações quanto a repetição, em outras palavras e formatos, de informações já consideradas históricas por parcelas mais tradicionais dos movimentos negros, mas ainda novidade para pessoas que sempre viveram “fora” destas discussões. Ao mesmo tempo, esta enxurrada de informações também não significa qualidade a respeito do que vem sendo divulgado, bem como não resolve uma das questões centrais no debate sobre as relações raciais no Brasil: o reconhecimento do racismo como forma preponderante de organização da vida concreta em todos os seus âmbitos, com a inclusão de todos os grupos populacionais nos debates e análises.

    As muitas discussões difundidas pelas redes e mídias sociais (como facebook, vlogs, blogs, whatsapp, instagram etc) conseguem promover a disseminação de um determinado tipo de conhecimento sobre relações raciais que antes apenas tinha acesso quem estava nas universidades e/ou integrando os diversos grupos do movimento negro. Este ponto, que considero positivo, não apaga e nem se sobrepõe aos possíveis problemas presentes nestas mesmas redes de difusão de informações, mas que não serão discutidas aqui – ao menos neste momento – devido, em especial, ao necessário aprofundamento que este fato merece e por não ser o objetivo desta reflexão. De qualquer forma, este movimento recente tem possibilitado especialmente a juventude negra e indígena dar vez a sua voz, explicitando suas vivencias a partir de si mesmes, e não mais de terceires.

    Além disso, ainda que não aconteça de forma preponderante, existem situações pontuais em que a presença de pessoas negras e indígenas que assumem suas características fenotípicas promovem verdadeiras micro revoluções em lugares onde tradicionalmente não se levantavam discussões sobre relações raciais, até mesmo porque espaços embranquecidos não eram lugar para pessoas negras e indígenas – e isto inclui a internet. Portanto, utilizar a potencialidade da internet, ao mesmo tempo em que se mantém e se fortalecem as as relações fora dela, pode nos ajudar nas lutas e resistências antirracistas que proporcionem olhares mais apropriados para os diferentes grupos raciais.

    Não se calar, nem se encolher diante de situações de racismo já são opções muito concretas e cada vez mais potentes em diferentes realidades. Ao que parece, as pessoas negras e indígenas tem compreendido com cada vez mais força que a violência do racismo não cessa e nem diminui, não importa onde elas estejam ou o que façam. Estes corpos políticos ganham concretude ainda antes de nascer (pensem nas expectativas do fenótipo de um bebê em famílias interraciais, por exemplo), e a maneira como serão e são lidos e acolhidos depende, prioritariamente, de como se apresentam, esteticamente inclusive. Portanto, o confronto é uma escolha quase que inevitável para muitos pessoas negras e indígenas que desejam ocupar espaços diferentes aqueles a elas relegados historicamente.

    Este fenômeno da popularização da internet e a divulgação maciça de informações impõe aprender a lidar com frustrações e deformações sobre as diversas e complexas formas de se constituir identitariamente, para todos os grupos raciais. A clínica psicológica3 precisa dar conta disto também. As críticas, muitas vezes concretizadas como violências verbais, chegam como uma verdadeira enxurrada para quem se propõe a disseminar informações sobre este tema. Além do mais, no caso do racismo, este conhecimento pode trazer ainda mais dor sofrimento a quem se expõe – seja militante, ativista ou alguém que apenas desejar debater o tema – sob formas que, provavelmente, ainda não conseguimos nos atentar na Psicologia. Afinal, para produzir conhecimento minimamente relevante, inclusive na internet, é preciso estudar com afinco materiais que apenas muito recentemente estão se tornando mais acessíveis. Por outro lado, esse conhecimento formal e teórico não blinda ninguém da violência do racismo. A sociedade em que vivemos nos convoca para novas e intensas reflexões e formas outras de estabelecimento de relações envolvendo este componente racial.

    A partir de uma auto afirmação identitária de psicologa negra, entendo, hoje, estas questões como formas conflitantes de existir, inerentes ao momento histórico, social, cultural e espiritual em que vivemos e que constrói formas próprias de vivências destas relações de acordo com as possibilidades e dificuldades postas a nós, cotidianamente. Não se trata de uma relativização pura e simples, mas muito mais do reconhecimento de tantas forças atuando juntas que dificultam meu fazer profissional quando não encaradas com a devida atenção, cuidado, ética e responsabilidade.

    Estes conflitos não podem ser encarados como algo que leve a uma pretensa unidade social, sob o risco de cairmos em uma armadilha fascista. Nosso desafio é construir alianças politicas que tornem possível o reconhecimento da existência de múltiplas formas de existir, as quais não são estanques, mas possíveis a partir de diferentes experiências sociais e que não podem ser definidas a priori, mas, ao mesmo tempo, possibilitam identificar as pessoas em seus lugares de existência, individual e coletivamente.

    Em uma compreensão fenomenológico-existencial da clínica psicológica, o reconhecimento da outra pessoa, como ela se apresenta, envolve um constante movimento de afastamento e aproximação. A clínica psicológica, tal como entendida aqui, envolve, necessariamente, o encontro e o diálogo entre duas pessoas reais e inteiras, independente do lugar físico onde este encontro acontece. Pode ser no consultório particular, no hospital, na escola, no CRAS…, enfim, nos diversos lugares onde profissionais de Psicologia tem possibilidade de atuação. O movimento de aproximação e afastamento concretiza o “entre” que se constrói na relação terapêutica: podemos desenvolver uma capacidade bastante firme de auto afirmação, mas se não existe a validação externa, não podemos ser seres completos, simplesmente porque não nos tornamos seres humanos sem a presença e o convívio com outras pessoas. A dimensão do “entre” se refere justamente aos muitos encontros que experienciamos no decorrer de nossas vidas – os quais podem nos potencializar ou enfraquecer. E isto inclui a relação psicoterapêutica.

    No caso de uma relação psicoterapêutica com a leitura racial, a tensão aí gerada tem a ver com a maneira como se constrói a identidade racial, tanto de terapeuta quanto de clientes, a qual envolve a história pessoal, com as devidas significações emocionais, além das confirmações e negações com que se deparam ao longo de sua vida e as decisões tomadas a cada momento de possibilidades. O movimento de aproximação pode ser ilustrado com o reconhecimento, por parte de psicologues, das situações de racismo presentes na história de vida de clientes, o que deve levar profissionais a favorecer o acolhimento, a compreensão e o fortalecimento de formas de estabelecimento de relações saudáveis e emocionalmente consistentes por parte de clientes. O movimento de afastamento se refere ao conhecimento de que a maneira de vivenciar a dor do racismo é única e individual e que a história e as possibilidades relacionais das pessoas em atendimento são apenas dela, embora possam carregar características importantes das vivencias do grupo negro mais amplo.

    Parafraseando Walter da Rosa Ribeiro (1998)4: “somos seres predominantemente relacionais, constituídos e formados/deformados nas relações” (p. 52). E, como seres relacionais, nossas vivências únicas, inscritas, construídas e ressignificadas no coletivo presente e atual, nos permitem chegar ao imprescindível agora de maneiras quase sempre dolorosas a partir de quando reconhecemos a violência da humilhação do racismo. Isto porque o “O Preconceito Racial Humilha, a Humilhação Social faz Sofrer” (CFP, 2002)5. Se eu, como psicóloga, não reconheço este sofrimento, esta dor que dilacera es outres, mantenho e fortaleço a lógica racial estruturante da sociedade brasileira, presente desde a invasão portuguesa neste território que já era ocupado por povos nativos e ainda trouxeram, a força, diversos grupos populacionais africanos, desumanizados desde então, até os dias de hoje. Na manutenção de relações racistas, “as diferenças se tornam uma barreira, em vez de um convite” para o encontro (HYCNER, 1997, p. 103)6. Neste caso, a interexistência inerente à nossa condição humana nos impede de estabelecer relações saudáveis, fortalecedoras e que permitam tanto o nosso crescimento e da outra pessoa quanto a diminuição das desigualdades sociais, levando à justiça social.

    Ao se propor a intervir nestas dores emocionais, ainda profundas e negadas desde a formação em Psicologia, esta ciência e profissão se apresenta como ferramenta potente – ainda que não seja a única – de tornar possível o reencontro amoroso consigo mesme, presente nas relações estabelecidas com outres. A expressão com acolhimento na clínica psicológica é capaz de aliviar uma carga emocional muito pesada e dolorosa carregada ancestralmente nos corpos (para muito além do fisiológico) negros e indígenas e vivenciada em todos os âmbitos de suas vidas. Essa carga ancestral se atualiza nos diferentes contextos relacionais que “teimam” em manter negres e indígenas em determinados lugares estanques de exclusão social. O acolhimento e a confirmação experienciados na clínica psicológica permitem a libertação desta prisão simbólica que se concretiza no cotidiano.

    As informações tão densamente veiculadas sobre diversos aspectos das relações raciais muitas vezes colocam em dúvida quais os lugares identitários possíveis para as pessoas negras e indígenas. Estas, que vivem formas de ajustamento identitário deturpadas, negativadas e deformadoras aprendem a negar, o mais cedo possível, suas características fenotípicas a fim de tentar ocupar lugares mais bem aceitos nas relações sociais. Vale ressaltar que o racismo é construído socialmente, de acordo com possibilidades contextuais. Estas consideram o fenótipo para situar as pessoas e os grupos em determinados lugares da estrutura social vigente. Se consideramos a atual formação da pirâmide social brasileira, podemos constatar a concretude da afirmação de Ângela Davis “quando as mulheres negras se movem, toda a estrutura política e social se movimenta na sociedade”7. Isto porque as mulheres negras são aquelas que ocupam a base da pirâmide social, por serem vítimas de dupla opressão estrutural: racismo e sexismo. Logo acima delas estão os homens negros, que seguem as mulheres brancas e, no topo, os homens brancos, grupo populacional que detém as maiores facilidades de ascender socialmente e aí permanecer, quando já não ocupam este lugar. Vale destacar novamente: os povos indígenas sequer aparecem nesta ilustração o que, mais uma vez, caracteriza sua invisibilidade até mesmo quando se trata de discutir desigualdades sociais. Ou seja: quanto mais características fenotípicas próximas da idealização africana e indígena, maiores as situações de racismo que são direcionadas a determinados grupos. Por outro lado, quanto mais próximas das características do ideal branco europeu, maiores as possibilidades de acessar e manter os privilégios sociais.

    Profissionais de Psicologia não escapam destes “enquadramentos”. Além de ser uma profissão com teoriques branques em sua maioria, a Psicologia ainda tem sido reconhecida como uma profissão elitista, pelo seu alcance na atuação e pelas características visualizadas nas salas de aula das instituições formadoras e nos diversos campos de pratica profissional8. Com a adoção das políticas de ações afirmativas nas instituições formadoras, este quadro começa a se modificar muito lentamente, tanto no aspecto visual – maior inserção de jovens negres na graduação – quanto na luta por discussões teóricas e práticas que considerem o recorte racial da população brasileira, levadas para este lugar institucional justamente por esta juventude negra e indígena.

    A crítica de que a Psicologia deve alcançar além de grupos raciais socialmente privilegiados se amplia a partir dos questionamentos e das demandas que estudantes cotistas raciais começam a levar para as salas de aula, conferindo à Psicologia a responsabilidade de se repensar enquanto ciência e profissão, se posicionando de forma mais veemente no que se refere ao sofrimento desnecessário e agressões  subjetivas e objetivas decorrentes do racismo. Algumas produções e debates importantes já foram iniciados, como a Resolução nº 18 de 20029 e o caderno de Orientações sobre a prática de profissionais da Psicologia na temática das relações raciais (CFP, 2017). Contudo, estas ações pontuais ainda encontram resistência dentro do próprio campo profissional, criando uma tensão que pode ser compreendida como mais uma faceta do racismo institucional presente em uma entidade que prima justamente pelo cuidado com es outres.

    Isto incide diretamente sobre os desafios de nossa atuação profissional, uma vez que a fala e a escrita sobre as dores emocionais decorrentes do racismo tem chegado com mais facilidade e velocidade a um grupo cada vez maior de pessoas, e justamente aquelas que não tem sido as principais fontes de construção do pensamento, das teorias e metodologias psicológicas: as pessoas da base da pirâmide social brasileira e aquelas que não aparecem na dita pirâmide, mas que estão se fazendo presentes com cada vez mais intensidade no cotidiano. As redes e mídias sociais tem um importante papel neste processo de visibilização destes grupos.

    Eis ai um grande desafio que se impõe a nós, profissionais da Psicologia: (re)aprender a enxergar nosso país de acordo com a pluralidade geográfica e populacional que lhe é característica. Cabe, também, nos perguntarmos, que referenciais teóricos, metodológicos e instrumentais iremos utilizar, a fim de nos encontrarmos de maneira mais ética, comprometida e responsável, com a realidade subjetiva e emocional da qual também fazemos parte.

 

NOTAS

  1. CFP – Conselho Federal de Psicologia. Psicologia e Relações Raciais: referências técnicas para atuação de psicólogas/os. Brasília: CFP. 2017. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacao/relacoes-raciais-referencias-tecnicas-para-pratica-dao-psicologao/
  2. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Violência 2018. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=33410&Itemid=432
  3. A clínica psicológica neste texto é definida como “uma clínica como ação (política de transformação […]; uma clínica articulada com o social, que promova uma mudança de foco que consideramos fundamental: da estrutura e dinâmica da vida psíquica para a situação humana concreta no mundo”. ALVIM, Mônica Botelho; CASTRO, Fernando Gastal de. (orgs.). Clínica de situações contemporâneas. Curitiba: Juruá. 2015.
  4. RIBEIRO, Walter da Rosa. Existência essência. São Paulo: summus. 1998.
  5. Campanha do Conselho Federal de Psicologia, 2002. Ver: https://site.cfp.org.br/campanhas/preconceito-racial/
  6. HYCNER, Richard. Considerações Finais: o espirito do diálogo. In: HYCNER, Richard; JACOBS, Lynne. Relação e cura em Gestalt-terapia. São Paulo: summus. 1997.
  7. Ver https://books.google.com.br/books/about/A_liberdade_%C3%A9_uma_luta_constante.html?id=HwlQDwAAQBAJ&redir_esc=y
  8. Em uma rápida busca no site do CFP, não foi identificado o recorte racial da demografia profissional no país. Existem apenas dados nacionais sobre sexo (sic). (Segundo o CFP, existem 317.718 profissionais no Brasil distribuídos em 21 regionais. Ver http://www2.cfp.org.br/infografico/quantos-somos/)

9. CFP. Resolução nº 18/2002: Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação a preconceito e discriminação racial. Ver em: https://atosoficiais.com.br/cfp/resolucao-cfp-n-18-2002-estabelece-normas-de-atuacao-para-os-psicologos-em-relacao-a-preconceito-e-discriminacao-racial?q=18

Livia Arrelias é mulher negra da Amazônia, psicóloga com experiência em consultório particular, docência na graduação em Psicologia, pesquisa, intervenções em política pública de assistência social, com comunidades quilombolas e indígenas e em movimentos de mulheres nos estados do Pará e Amapá.

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