Espaço Reservado ao acolhimento e a fragilidade das Guerreiras

Por Samanta Fonseca

Julho é o mês das Candaces, título dado a dinastia de Rainhas Guerreiras que viviam em uma sociedade matriarcal ao sul do Egito (Continente Africano), é o julho das Pretas, momento de trazer à memória heroínas, mulher9es negras que lutaram (e lutam) por liberdade em seus diversos sentidos. Mas, nossas Guerreiras não sofriam? Não choravam, ou se entristeciam? Não amavam? E hoje, nossas guerreiras não sofrem, choram, amam ou se alegram? Nos permitimos se fragilizar diante da expressão das emoções que sentimos?! Vamos por partes.

 

Dia 25 de Julho foi instituído como o “Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha”, desde 1992. Sua importância reside em chamar a atenção da sociedade para perceber as mazelas que atingem as mulheres que estão às margens de políticas públicas, de segurança, saúde, educação: à margens de direitos. Entre 2003 e 2013, por exemplo, aumentou em 54,2% o número de assassinatos de mulheres negras, enquanto, no mesmo período, houve diminuição de 9,8% para as mulheres brancas (Mapa da Violência de 2015).  

 

Desde 2014, no Brasil, foi fixada na mesma data o “Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra”, como homenagem a Tereza que foi uma líder quilombola no século XVIII. Após a morte de seu companheiro José Piolho, ela se tornou a Rainha do Quilombo Quariterê. Lutou e resistiu a escravidão por duas décadas ao lado de homens e mulheres negras e indígenas. Foi capturada em uma das muitas emboscadas e morreu dias seguintes por inanição, ou seja, se recusou a comer devido as humilhações e desrespeito a qual foi submetida.

 

Hoje, 14 de Julho (data em que escrevo), completa 120 dias que estamos sem Marielle Franco: mulher, negra, lésbica, favelada, vereadora assassinada por lutar por direitos, POR DIREITOS, cujos assassinos seguem impunes.

 

O dia 25 é para homenagear, ressaltar e visibilizar a força, a resistência e o protagonismo da mulher negra frente as opressões. É inquestionável a força, a versatilidade e a engenhosidade da mulher negra em se (re) inventar frente a uma demanda em que ela precise sair dos bastidores e assumir o palco com maestria. São mulheres negras que foram e ainda são exemplos de luta por uma sociedade equânime. Tiveram suas vidas ceifadas, mas outras se levantaram para seguir (e seguem) a luta diariamente.

 

Em meio a tanto contexto de força, e a fragilidade? Nossas Guerreiras não sofrem? Não choram? Não sentem dor e tristeza? Ao espírito guerreiro, de luta, não cabe a expressão dos sentimentos? Da dor do luto? Do amor?

 

No texto “Vivendo de Amor” de bell hooks (escrito minúsculo) relata que a chave para a sobrevivência de homens e mulheres negras durante a escravidão foi a repressão das emoções. Dada as sub condições que viviam, foi desenvolvido um senso prático de lidar com as emoções: engolindo o choro, a raiva, a tristeza, a euforia, os afetos (…), pois qualquer demonstração naquele cenário poderia ser (e era) sinônimo de mais violência. Reprimir os sentimentos foi uma forma para sobreviver a escravidão.

 

No entanto, mesmo após a “abolição”, essa prática ficou impressa nas relações da população negra, passando de geração a geração. Até a mim, até a você, cada um com sua história particular. Com o tempo a habilidade de esconder e mascarar os sentimentos passou a ser vista como um traço de personalidade das pessoas negras: “ah, ela tem personalidade forte”, “mulheres negras são mais fortes e aguentam mais dor”, “os povos negros foram escravizados porque eram mais fortes” e por aí vai…

 

Não é traço de personalidade de nenhum ser humano, independente de sua etnia, religião, cultura ou classe social, estar acostumado com a dor, com o sofrimento, com a falta de direitos básicos e essenciais à vida.

 

As mulheres negras também choram, sentem dor, se entristecem, ficam com raiva, frustradas, mas, também dão sorrisos largos, sentem amor, gozam, sonham, se alegram, se encantam, se apaixonam, lutam, e tecem esperança. Ambas as dimensões: ser “guerreira” em sua vida e pelo que acredita e sentir e expressar suas emoções fazem parte da mulher negra.

 

Ressalto sim a importancia de revisitarmos e mantermos presente nossa herança de luta e de força, da “guerreira” que habita em nós, mas também é imporante não perder os próprios sentimentos de vista, usando a força como um escudo para não sentir e não expressar as próprias emoções. O que não é expresso pelo choro, pela expressão dos sentimentos, é vivenciado psiquicamente e/ou fisicamente pelo corpo, trazendo comprometimentos emocionais, sociais e até físicos à saúde.

 

Temos espaços de enfatizar a luta por nossos direitos, mas também precisamos de mais espaços reservados que acolham as dores e fragilidades, em que possamos expressar o que dói e como dói, pensando assim, possibilidades de lidar com os obstáculos da vida. Força e fragilidade são faces da mesma moeda, lembra do texto do mês passado (“O tempo é um rio fluindo do passado: Reflexões sobre Saúde X Doença”)?! Pois bem, uma face não invalida a outra, uma integra a outra. E as duas faces juntas dão maior equilibrio na vida social, política e emocional.

 

Samanta Santos da Fonseca

Psicóloga Clínica|CRP 06/12393-3

Mulher negra sonhadora e apaixonada pela vida e suas possibilidades

O que você achou deste texto? Me escreva!

E-mail: smtsantosfonseca@gmail.com

Instagram: @psicosamantasantosfonseca

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