“querendo agregar, será bem vinda.” – Sobre participação em eventos que desrespeitam convidadas negras.

Por Laura Augusta

Desde quando começamos a adentrar os espaços de poder, sejam acadêmicos ou representativos, somos desafiadas a ser três vezes melhores no que fazemos, em relação às mulheres brancas e ainda demarcar um território racial que foi negado historicamente através das diversas formas de racismo e misoginia. Quando o reconhecimento desse trabalho vem a tona, vários convites chegam aos nossos emails e inbox’s para participar de mesas, seminários, congressos, eventos, enfim.. são muitas pessoas que estão interessadas em escutar o que temos a dizer (em sua maioria com relação a sobreviver em alguns espaços e do que da real qualidade de nosso trabalho), e isso é muito bom! Compartilhar saberes, informações e poder construir ferramentas de emancipação com outras mulheres é fantástico! Porém, pensando que a estrutura desses eventos movimenta capital, porque na maioria desses convites pressupõe-se que a nossa participação seja voluntária?

As discussões de gênero e raça vem ganhando força e adentrando espaços importantes como o organizacional, as áreas de exatas, ciências e o direito, que historicamente são liderados e ocupados por homens brancos. Logo, é um fator que mexe não apenas com o público alvo de consumidores de algumas empresas interessadas, mas com toda uma estrutura social e parafraseando Ângela Davis, quando nos movimentamos, toda a sociedade se movimenta conosco. Essas discussões chegam após muitos anos de luta dos movimentos sociais e de pessoas que foram cruciais para a democratização dessas discussões e para que as ações afirmativas se tornassem políticas públicas e institucionais para maior garantia de direitos para a população negra e feminina.

Com essa movimentação que ainda é pequena para o tamanho da desigualdade racial e de gênero vigente, os espaços de produção e promoção de saberes, que são espaços políticos de poder, são movimentados e financiados por institutos financeiramente importantes, que patrocinam pesquisas, eventos e produtos que são interessantes, dentro dessas relações de poder, para a instituição e para a sociedade. E atualmente, a questão da equidade, também incluída no setor de ‘responsabilidade social’ nas chamadas ‘ empresas aliadas’, lucram severamente com a inserção do público negro e feminino. Logo, as movimentações não podem ser lidas apenas como um passo na luta da representatividade, mas também é preciso refletir que essa inclusão ocorre após uma pequena mobilidade econômica nos últimos 15 anos, que possibilita um maior poder de compra á população negra.

Tudo isso para chegar no ponto cerne deste texto: Escuto narrativas de lideranças de movimentos sociais importantes, mestras, doutoras, profissionais que trabalham com saúde, educação, tecnologia, enfim – todas negras e mulheres, que tem sua presença solicitada em eventos de diversas temáticas ( principalmente quando envolve uma temática racializada e gendrada), porém o fator remuneração,mobilidade, estadia, alimentação, é colocado em cheque e o discurso de falta de verbas aparece como chancela para tal.  Isso é desrespeitoso com qualquer convidado porém muitas vezes é naturalizado quando e trata de pessoas negras. Quando negamos a participação, muitas vezes a nossa militância é questionada, quando aceitamos, somos obrigadas a nos dispor financeiramente a cobrir essas despesas.

Lendo isso tudo em voz alta parece injusto né? Mas é uma realidade mais recorrente que nunca. E fico me perguntando, será que uma pessoa branca falando da mesma temática, passaria pelos mesmos dissabores? Ou pressupõe-se uma obrigatoriedade por existência de pessoas negras realizar esse serviço de forma gratuita? São muitas questões que o racismo institucional e estrutural nos responde muito bem. Quando nossas mães, avós, bisavós eram chamadas de ‘quase da família’, muitas vezes exerciam trabalho doméstico e em contrapartida recebia casa e comida. Essa realidade de mucama não acabou e ainda conseguiu tomar outras formas, como os trabalhos de péssimas remunerações e cargas horárias altíssimas.

 

Por fim, acredito que enquanto nós não formos vistas como cientistas de nossos próprios saberes e de outros, ainda seremos lidas como mucamas e seremos tratadas como tal. Quando nos convidam para eventos científicos para falar sobre qualquer assunto e não garantem mínimas condições para estarmos nesses espaços, está se fazendo a manutenção do epistemicídio de nossas narrativas. Portanto, acredito que precisamos ser muito cuidadosas ao fazer e aceitar convites, para ficarmos atentas se realmente estamos sendo representativos ou estamos fazendo a manutenção de uma opressão estrutural.

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