Identidade: (des) construir se (re) construindo

“Enquanto os leões não contarem suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre os caçadores”.
Provérbio Africano

Samanta Fonseca¹

Quem conta sua história?! Aliás, qual é a sua história?! O que as marcas em seu corpo físico, em seu corpo social, em seu corpo emocional dizem a seu respeito?! Qual é a sua identidade?! Você se (re) conhece?! Perguntas difíceis de serem respondidas… Pensar em Identidade não é uma tarefa fácil, por vezes, mobiliza, desestrutura, desconstrói fantasias e expectativas. Para, com o tempo (des) construir se (re) construindo a cada momento!

Adentrei ao mundo da consciência negra pelo viés estético, ou seja, a partir da transição de meu cabelo alisado para crespo. Nem sempre eu soube que era negra (com toda a intensidade histórica, social e política que a palavra traz). Quando criança eu era chamada de morena, mestiça ou mulata (…). Ser negra soava (e ainda soa) como uma ofensa, por isso, havia e ainda há grandes dificuldades no reconhecimento de identidade da população negra.

O cabelo crespo e volumoso sempre amarrado e se possível trançado, pois “cabelo de preto é igual a bandido: ou tá preso ou tá armado”, era o que falavam. Me lembro de brincar que tinha cabelos cumpridos e sedosos com uma toalha branca na cabeça simulando um cabelo liso. Me lembro de gostar de meus cachinhos ao passar Yamasterol (creme usual nos anos 90), mas o que conseguia fazer era só um “pega rapaz” (pequena mecha de cabelos para deixar ao natural), enquanto o restante estava bem preso, inclusive, ao ponto da cabeça doer. Pegar piolho era terrível, pois não havia outro conhecimento a não ser passar “pente quente” e “chapinha” (algumas formas de alisamento nos anos 90) para alisar o cabelo e, enfim, cuidá-lo. Na adolescência, fui apresentada às químicas de relaxamento que alisavam o cabelo a base de pastas que, por vezes, queimavam o couro cabeludo, além de deixar um cheiro horroroso por dias. Mas, eu tinha que me sentir bonita! Será que alguém me namoraria com aquela aparência?! Eu precisava sentir que poderia ser desejada por alguém, por isso, “alisei minha aparência” segundo os ditames da narrativa hegemônica vigente e, com ela, a minha essência.

Fazer relaxamento no cabelo (alisamento) não é barato, há manutenções constantes que custam muito dinheiro para uma pessoa de baixa renda. A última vez que fiz relaxamento foi na semana de meu casamento, há exatos dez anos. A ideia era alisar para conseguir fazer um penteado bonito, afinal, era meu casamento e com o “cabelo armado” eu não iria atingir o padrão de beleza de uma noiva, assim eu pensava e a maioria concordava. Com o tempo, o dinheiro encurtou e, com ele, a possibilidade de manutenção de meu cabelo “relaxado”. Passei longos períodos com ele preso, sem saber o que fazer e com vergonha de minha aparência. Cheguei até a pensar que meu marido me olhava e via outra mulher em meu lugar… uma total distorção de minha autoimagem.

Aos poucos, meus cabelos cresciam e, com ele, a essência de uma menina que nada antes sabia. Aos poucos, meus cabelos cresciam e a raiz, outrora escondida, agora resplandecia. Aos poucos, meus cabelos cresciam e com meus fios crespos e enrolados também foi crescendo a autoconfiança e a autoestima. Passei a gostar do que sentia. Depois, passei a gostar do que eu via no espelho. Passei a gostar de mim! É um processo que começa biologicamente por fora, mas sua força, na verdade, está na mudança interior que promove autocura diante de um mergulho em raízes ancestrais, se nutrindo com força e confiança. Se nutrindo com o melhor e potente que há em você: você mesma!

Crianças negras, geralmente, não possuem “o conforto de que está tudo bem (*)” em relação a seus traços negroides: cabelos, nariz arredondado, lábios grossos, tom de pele, curvas… Se procurarmos em nossas histórias individuais, nossos pais possivelmente também não tiveram o mesmo “conforto”, o que denota um aspecto geracional de baixa autoestima, de falta de confiança e de valorização de si.

Hoje em dia, tendo contato com minhas raízes, eu procuro ofertar este “conforto de que está tudo bem” aos que estão próximos (as) de mim, independente da idade e da relação, procuro estimular e encorajar o potencial encontro de cada pessoa com o melhor de si, aceitando e amando cada traço, cada marca, cada fio crespo que lhe faz parte. É a chance que temos de ressignificar (dar novo significado) ao que não tivemos na infância e proporcionar um novo momento às nossas crianças na construção de suas identidades.

A Identidade não é um aspecto rígido da personalidade, ao invés disso, ela marca um encontro do indivíduo com seu passado na inter-relação com aspectos sociais, históricos, culturais e econômicos do cotidiano. A identidade “não é” algo fixo e terminado, a identidade “está sendo” construída a cada momento, a cada relação, a cada troca que você faz com o ambiente. É um constante movimento de (des) construir se (re) construindo e é importante que esse processo seja acompanhado de acolhimento, de diálogo, de abertura à alteridade, de momentos em que você também se oferte “o conforto de que está tudo bem (*)” em sua história.

*Frase dita por uma paciente querida, a qual me permitiu dividir com vocês neste texto.

 

Samanta Santos da Fonseca
Psicóloga Clínica|CRP 06/12393-3
Mulher negra sonhadora e apaixonada pela vida e suas possibilidades

O que você achou deste texto? Me escreva!
E-mail: smtsantosfonseca@gmail.com
Instagram: @psicosamantasantosfonseca

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