Corpos indóceis. Donas de si

Lívia Arrelias

A história da humanidade já vem mostrando, há seculos, a força das mulheres quando se trata de quebrar tabus, romper fronteiras. Se antes isso acontecia em pequenos nichos – vide as bruxas na idade media europeia, segundo conta a história ocidental oficial – paulatinamente viemos nos fortalecendo, luando contra o sistema que nos oprime e violenta. O resultado: cada vez mais espaços conquistados e protagonizados por nós, com organizações cada vez mais complexas, porque somos diversas.

Apossar-se de si, a partir de uma corporeidade reiteradamente negada, impõe novas maneiras de enxergar a si e as/aos outres. Uma corporeidade que se manifesta em ações, emoções, pensamentos, estéticas, afetos, que toca e é tocada por outras corporeidades.

A nossa diversidade envolve outras corporeidades, tão diversas quanto nós, mostrando as necessárias complementaridades que nos tornam, efetivamente, donas de nós, ainda que, por enquanto, a peso de muita dor e enfrentamentos. O reconhecimento da convivência com masculinidades – também diversas – apresenta o caráter relacional que nos constitui como humanas. Por que nossa luta e resistência não são apenas nossas. O protagonismo, esse sim, é nosso, e precisamos continuar nos empoderando dele. A perspectiva de mulher negra que sou me responsabiliza a olhar para a nossa construção pessoal considerando quem nos cerca, seja para nos aliarmos, seja para nos defendermos.

Cada vez mais, temos conseguido mostrar que nossa ação é potente, é criativa, é resistente, é afetiva, é acolhedora, é agregadora. E, assim, continuaremos (re)xistindo. A história, oficial ou não, nos mostra que nunca fomos dóceis. Há tentativas reiteradas de nos docilizar, de diferentes formas possíveis. Mas nossas estratégias para permanecermos vivas e cuidar de nós e de nosses tem se apresentado sempre criativas. Na história ainda não contada oficialmente, as mulheres negras ensinavam às crianças brancas suas histórias ancestrais, impedidas que foram – e continuam sendo – de cuidar de suas próprias crianças. Elas alimentavam, às escondidas, cativos castigados e cuidavam de seus ferimentos. Jamais desistiram de si e de suas/seus. Falta conhecermos a versão das indígenas.

A luta se fez – e se faz – na trincheira, de armas e enxadas na mão. Na academia, eurocêntrica, machista, lgbttransfóbica, revelando ao mundo sua próprias experiências de vida e perspectivas de mundo. Na política, denunciando desigualdades e injustiças, ao mesmo tempo em que propõem medidas para saná-las. Nas diversas linguagens artísticas, ainda furando intensos bloqueios de apagamentos, exotização e imagens negativas construídas pelo ideal colonizador. Nas intimidades das relações afetivas – amorosas e de amizades – enfrentando as diferentes formas de violências, enquanto se (re)constroem, umas com as outras, de maneira positiva, com potência de afeto. Nas atividades profissionais, em todos os níveis de escolarização, quando enfrentam os racismos cotidianos em suas diferentes facetas. Nas vivências espirituais, quando se negam a desvincular esta dimensão de suas experiências cotidianas.

Portanto, as mulheres tem ensinado que ativismo se faz em espaços relacionais micropolíticos. Uma coisa é certa: nunca mais nos calarão. Não chegamos até aqui para retroceder. “Medo” é palavra cada vez mais confrontada com “enfrentamento” e “resistência”.

Por mim. Por nós.

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