Vozes íntimas do Pensamento: processos de cura

Por Sumaia Bueno

 

Às vezes é necessário receber um tratamento terapêutico doloroso para ter
consciência de algo que só depende da própria pessoa.
As lágrimas descem sem controle… As mãos formigam…tontura… e ao mesmo tempo
alívio, satisfação…vergonha e gratidão! Produziu muita dor, a ponto de fazer a pessoa
sair do consultório, sem a queixa inicial.
Às vezes é necessário a ausência para que haja o encontro…
Ser humilde é dizer no corredor do ambulatório de um hospital psiquiátrico, que você é
profissional de saúde, e que também necessita se cuidar. O tão famoso autocuidado
minimizado e justificado com a falta de tempo, trabalho excessivo, etc.
Mas a voz da experiência diz, “quanto mais esforço, mais cuidado, mais prevenção”.
Fácil? Não. Trata-se de questão de sobrevivência e de qualidade de vida!
Caramba!
Como cuidar de outras pessoas sem se cuidar?
Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu.
E as demais pessoas ao seu lado, que se posicionam à sua frente ou atrás de você?
Mas a cobrança é de estar consigo mesma e não se anular. Emoção? Sim! Inúmeros
momentos de alegria e satisfação…Viver em uma cidade que beira ao mar, em uma casa
ou apartamento acolhedores, ter boa qualidade de vida, ótimas amizades, um contrato de
trabalho, todas essas são situações que se traduzem em bem-estar.
Contudo, o que adoece é sentir raiva e não poder expressá-la, impotência, frustração, a
não elaboração de algumas perdas, baixa autoestima, ocasionando consequências
psicossomáticas.
Quanto custa acordar mais cedo para caminhar, ir à praia, mesmo antes de começar a
jornada de trabalho, ou no final do dia, ou nos fins de semana?
Ah! Custa… quanto custa, dizem muitas pessoas nas consultas médicas e tratamentos
com terapias complementárias. Muitas vezes pensam que estariam descansando quando
ficam mais tempo deitadas na cama, ou prostradas num sofá assistindo televisão,
olhando durante horas as redes sociais para distrair suas mentes, ou comunicando-se
pelos aplicativos de mensagens dos ditos “celulares inteligentes”: Autoengano.
Sim, puro autoengano! As pessoas confessam suas atitudes de inércia, sem se darem
conta do quanto se prejudicam.

Quantas horas, dias e meses perdem com essas atividades “do autoengano”, para não
entrarem em contato com as suas reais dificuldades e desejos???
Expressam que seus maiores sonhos são: ler, assistir bons filmes, ir ao teatro, viajar a
passeio, etc…
Para que não usar esse tempo dedicando-se a estudar, que é algo que realmente estimula
a mente, produz prazer e conhecimento?
Pois é, raciocinamos, mas como dar movimento às ações, que impulsionariam a
mudança significativa?
Contudo, sentem cada vez mais, se sensibilizam muito mais com a desgraça dos outros,
com a pobreza, com a miséria humana…desastres ecológicos, guerras, terrorismo.
Muitas sofrem quando ouvem notícias de feminicídio, violência infantil, assassinatos de
jovens negros, de um irmão em situação de rua.
Como elaborar, integrar e digerir tudo isso, quando muitas vezes também estão
sentindo-se fragilizadas, sozinhas, desejando profundamente a presença de seus pais e o
aconchego do colo materno? Por que nem sempre há companheiro ou companheira
afetivo para compartilhar essas angústias? Como não adoecer?
Será mais fácil agir com frieza, distância, sem empatia para não se envolver ou não
fazer amizades? Será que resolve alienar-se e pensar que essas situações atingem muitas
pessoas, além dela mesma? Ou o melhor, é parecer ser outra pessoa?
As identidades são construídas. E com as vivências dos lugares vividos, re-construídas,
re-inventadas e integradas.
Mas se nasceram ou vieram de outros lugares, o que ocorre?
Sua identidade é transnacional? Que será isso? Um novo conceito? São migrantes?? É
assim que se sentem, no seu próprio país, mesmo sendo de outra região do Brasil?
É uma sensação de quem não é daqui e já não é de lá. Sabe como é, algo relacionado
com o pertencimento!
As palavras de ordem são: Resiliência e Resistência!
Mas do que era mesmo que falávamos?
De outras vozes.
Como manter a saúde física, mental (emocional), espiritual e social?
Saúde espiritual, tema complexo. Pois se a pessoa não é praticante das religiões
Católica ou Evangélica, e nem Espírita (Alan Kardec), que são aceitas socialmente,
pode ser discriminada por se identificar com uma religião de Matriz Africana, que no
caso das pessoas negras, faz parte de sua ancestralidade. Imaginem…!!!!

Contudo, a espiritualidade é muito mais que estar vinculada a uma religião, mas o
Racismo está tão arraigado… Como viver, sem poder expressar livremente suas crenças?
Produz uma certa “Esquizofrenia social”, fazendo com que as aparências ganhem valor
imaginário e confortável!
Outra voz fala sobre a perda ou a distância dos filhos. Algo terrível para uma mãe ou
pai. Produz uma ruptura do vínculo emocional e grande dificuldade para manter o
equilíbrio psíquico. E cada vez mais, temos famílias que passam por separações desses
laços, afetando todos os âmbitos da vida.
Então qual era mesmo o conceito ampliado de saúde para a OMS?
Dia 27 de Agosto é o Dia do Profissional de Psicologia. Somos na grande maioria
mulheres exercendo esta Profissão, e podemos tentar desmistificar nosso papel,
ajudando a população a deixar de pensar que temos “bola de cristal”, que só tratamos
pessoas “loucas” (com Transtornos) ou que estamos totalmente resolvidas internamente.
Com o relato das vozes acima transcritas, quis deixar explícito o quanto de humanidade
existe em nós psicólogas e psicólogos, já que às vezes também somos pacientes. A
diferença primordial é a posição em que nos colocamos quando estamos atuando, e a
consciência de quando há transferência e contra-transferência.
Essas vozes são reais. Atingem muitos profissionais, principalmente do sexo feminino.
As respostas acontecem quando nos colocamos disponíveis para mergulhar no nosso
interior, e retirando as defesas que nos impedem de crescer e responsabilizar-nos por
nossas vidas.
Um alerta: o autocuidado é imprescindível e necessário, principalmente para sermos
coerentes com a metodologia que utilizamos para atender pessoas, na clínica, no âmbito
escolar, no social, na saúde, em organizações não governamentais, empresas privadas,
etc. Porém, não podemos abafar os temas transversais que permeiam a saúde.
Onde houver um ser humano necessitando de ajuda, lá estaremos atuando com as nossas
ferramentas técnicas. Mas sem a nossa identidade e coração (alma), não seremos
verdadeiras/os, com eles e muito menos com nós mesmas.
Coerência, métodos, técnicas, autocuidado, autoestima, podem produzir saúde e paz
interior.
Porém, nem sempre é fácil manter-se consciente em todos os momentos e afirmar sua
identidade, por isso a Psicoterapia é necessária em muitos casos e etapas da nossa
trajetória.
Eu só posso ser eu mesma, quando sou verdadeira e congruente com os meus
princípios éticos e morais.

Gratidão às pessoas que se permitiram navegar nesse trabalho de ampliação da
consciência por meio do diálogo terapêutico.
Parabéns a todas e todos os colegas, especialmente às Psicólogas Negras!
AFRONTEMOS! Essa é a minha voz!

Sumaia Bueno Baptista,
Licenciada em Psicologia há vinte e nove anos. Mestrado em Psicologia
Social e Especialização em Terapia Gestalt
JP/PB, agosto de 2017

Anúncios

O que me trouxe aqui foi o amor, recomendado pela possibilidade de tocar almas sem deixar impressões digitais.

Por Vanessa Pita Sousa 

 

O que me trouxe aqui foi o amor, recomendado pela possibilidade de tocar almas sem deixar impressões digitais. Quem vê nos meus olhos as paredes sem reboco ao meu redor, infere o que intento desconstruir, pintando a sete cores de infindas texturas, desde grão até centenas

de anéis. O mês de agosto, embora muito representativo, pouco pode dizer do que eu vivo de janeiro a dezembro, do que jurei há quase dez anos e até do que eu nem me lembro. Sou honrada por a psicologia ter me escolhido, só me exigindo o ouvido, me ofertando muito mais em troca. Nem sei porque isso tudo soa como rima, mas afina bem com nosso mês de celebrar. Aproveito o ensejo para saudar às colegas cujas homenagens são mais que merecidas, por fazerem lugar em todos os não lugares daqui. Que, de posse do não lugar que lhes foi designado, podem respeitar ainda mais as lacunas de quem procura por seus serviços ou pelxs, que de alguma maneira, sejam localizadxs por sua fina escuta.

Eu morro todos os dias e renasço psicóloga toda manhã, com o mesmo frescor da época de inscrição provisória. Vejo-me sempre indignada para mudar tudo. Transitei em algumas cidades do interior da Bahia, do interior de mim e das pessoas que me oportunizaram o prazer de atendê-las. Eu ainda era uma menina quando comecei, literalmente, nem dezoito tinha e, essa menina sem saber de nada, até hoje me ajuda a escutar outras meninas e meninos desde a infância até adquirirem demência.

Me formei e continuo a me graduar por lugares que sequer me exigem matrícula,
aprendi mais com a generosidade de quem não sabe desenhar a letra A. Munida dessa
magnanimidade recebida e outras tantas, tornei-me a psicoteraptreta cujo setting não
obedece ao cúbico das paredes, mas que intenta ampliar horizontes.

 

A SAÚDE MENTAL DOS NEGROS E NEGRAS NA UNIVERSIDADE

Por Laila Resende¹

 

Para falarmos sobre a saúde mental dos negros e negras na universidade é preciso falar sobre ser uma pessoa negra no Brasil. O Brasil é um país racista, que sustenta o mito da
democracia racial. Democracia racial é a ideia de que todos as pessoas, de todas as raças, vivem harmonicamente. Mas se observarmos, por exemplo, o número de pessoas negras que ocupam cargos de gerência em médias e grandes empresas, em comparação com pessoas brancas, teremos um número ínfimo. Ao passo que, se observarmos o número de pessoas negras desempregadas ou prestando serviços análogos a escravidão veremos que essa pirâmide se inverte.
Ser negro no Brasil é enfrentar o racismo e suas articulações, além de ser historicamente um desafio. Porque sendo eu negra e mulher, enfrento o racismo e o machismo. Um negro LGBT, o racismo e a LGBTfobia, um negro de religião de matriz africana, o racismo e a intolerância religiosa. Lutamos diariamente por direitos básicos, inclusive o direito à vida. Hoje se fala em genocídio do povo negro, onde pessoas negras são sistematicamente assassinadas. Mulheres negras as maiores vítimas de feminicídio, violência doméstica, violência obstétrica. Os jovens negros são alvo preferencial de violência policial. Os negros LGBT’s são principais vítimas de LGBTfobia. E ao mesmo tempo em que temos nos organizado para garantir nossos direitos, avançar em ações afirmativas, uma onda reacionária também tem crescido, avançado e ameaçado todos os direitos conquistados a
muita luta e a muitas vidas. Tendo como pano de fundo o que é ser negro/negra no Brasil, já temos pistas do que significa ser um negro/negra na Universidade. Ser negro na universidade exige grande esforço, de naturezas diversas. Faz-se necessário esforço financeiro para garantir a permanência naquele espaço, independente da Instituição ser pública ou privada. Também se faz necessário um esforço subjetivo, porque muitas vezes vamos ouvir piadas de professores e colegas, não teremos nenhuma indicação de referencial teórico de intelectuais negros e negras, teremos nossa fala deslegitimada, nosso saber questionado, subjugado.
A Universidade exige também um esforço intelectual. Se o estudante negro/negra veio de
uma escola pública e era considerado um estudante mediano, a chegada na Universidade pode despertar sentimento de inferioridade, de menos valia, por não ter tido acesso a mesma educação de qualidade que algumas pessoas ali tiveram. A universidade exige e muitas vezes não se está familiarizado com o espaço, com a linguagem, com as formas de avaliação. Ou mesmo quando o negro tem condição financeira favorável e as vezes não se lia como pessoa negra, mas quando chega na Universidade tem um impacto porque ali ela é lida como negra e passa a observar uma série de opressões que vivenciou ao longo da vida, como a piada racista, o apelido racista.
Tudo isso gera tensão, são fatores de adoecimento mental e demanda nosso olhar cuidadoso. O acesso à universidade não garante nossa permanência.
Precisamos nos preparar e entender que o enfretamento é individual, mas também coletivo. É coletivamente que a gente se organiza, se fortalece, se empodera.
É importante que busquemos conhecimento acerca da história do povo negro, da cultura, dos ícones. Precisamos nos dedicar mais para preencher um vazio acadêmico, isso faz com que nos afastemos das pessoas o que pode gerar um sentimento de solidão, inadequação. Não se afastar totalmente de nossos amigos, pessoas próximas e familiares, pode ser também um coadjuvante para este momento.
E por fim, precisamos reconhecer e aceitar quando precisamos de ajuda. Dentre os vários estereótipos que recaem sobre as pessoas negras, os da força física e emocional são ainda muito presentes. Tais afirmações são interiorizadas pelo sujeito e isto dificulta muito a busca por ajuda mesmo, quando a pessoa encontra se em seu limite. É preciso compreender que buscar por ajuda profissional não faz de ninguém uma pessoa fraca, ao contrário demostra amor próprio e autocuidado.

E que tenhamos em mente que não morremos só de tiro.

“Meu psicólogo disse que racismo não existe”

Depoimentos de pacientes revelam que muitos psicólogos não sabem lidar com questões raciais no consultório. A maior carência é uma formação que aborde o problema do racismo no Brasil

Por Jarid Arraes no Revista Fórum

Marília Lopes, mulher negra e professora universitária de 38 anos, procurou uma psicóloga porque sofria com depressão há muitos anos. Sentia que precisava de ajuda e que seu trabalho estava sendo severamente prejudicado. Na primeira sessão de psicoterapia, sentiu a necessidade de falar sobre as diversas situações em que sofreu racismo, contando de sua infância trabalhando como empregada doméstica e babá sob o pretexto de que estava “brincando com a filha da patroa”, até casos mais recentes, em que fora seguida dentro de lojas onde fazia compras. Ao final, a psicóloga – que era branca – afirmou que Lopes precisaria mudar o comportamento de “se vitimizar e transformar acontecimentos normais em racismo”.

Em busca de sua segunda psicóloga, Lopes chegou a fazer cinco sessões de psicoterapia, quando finalmente começou a falar do racismo que lhe causava sofrimento. “A psicóloga ficou visivelmente impaciente e desconfortável e me perguntou se eu achava mesmo que racismo ainda existia nos tempos de hoje”, relata Lopes. “Saí de lá arrasada, estava pagando muito caro por cada consulta e nunca imaginei que uma profissional fosse questionar a veracidade do meu sofrimento, do racismo, daquela forma. Nunca mais voltei a procurar terapia, hoje ainda luto contra a depressão e apenas faço uso de medicamentos”, completa.

O caso da professora Marília Lopes não está isolado da experiência de outras pessoas negras brasileiras. Para a bióloga Tereza Amorim, as consequências do despreparo profissional foram graves: “Comecei a fazer terapia com um psicólogo e tudo corria bem até que comecei a perceber que muitas das coisas que eu passava na vida aconteciam porque as pessoas eram racistas e me tratavam de forma discriminatória pelo fato de eu ser negra. Quando passei a falar sobre isso com meu terapeuta, ele primeiro começou a negar que aquelas coisas fossem racismo. Meu psicólogo disse que racismo não existe e depois passou a dizer que não existe mais racismo no Brasil, porque as ‘mulatas’ são valorizadas”.

leia também: Racismo faz mal à saúde

Amorim conta que ainda enfrentou vários encontros com o psicólogo, até que descobriu um grupo de mulheres negras e feministas que se reuniam mensalmente em sua cidade. “Aos poucos, fui falando das minhas feridas provocadas pelo racismo e pelo machismo e entendi que elas eram parte de um problema social muito maior. A militância foi a minha terapia, a Psicologia não fez nada por mim”, declara.

O despreparo da Psicologia brasileira para lidar com questões raciais ainda é um fato preocupante. Em diversos grupos de discussões sobre racismo nas redes sociais, são recorrentes os pedidos por indicações de psicólogos capacitados para lidar com o problema do racismo. Entre tímidas recomendações, uma chuva de depoimentos frustrados aparece.

Para Cinthia Vilas Boas, psicóloga e militante do movimento negro, o problema começa nos cursos de formação. “A realidade está muito longe do que chamamos de transversalidade”, afirma. Embora o racismo seja um profundo problema no Brasil, a formação dos psicólogos ainda não reconhece a discriminação racial como uma fonte de adoecimento psíquico – se reconhecesse realmente, o tema não seria uma exceção conquistada pelos esforços de profissionais como Vilas Boas, que é colaboradora da atual gestão das subsede do Conselho Regional de Psicologia em Campinas, onde integra o grupo de trabalho sobre relações raciais.

Embora haja esforços para se debater racismo na Psicologia – principalmente por meio de atividades propostas por Conselhos Regionais como o da Bahia, o do Distrito Federal e o de São Paulo –, essas ações ainda são uma minoria no imenso contexto da Psicologia brasileira. Nenhum Conselho tem o poder de modificar as grades curriculares das faculdades e Universidades e inserir disciplinas ou bibliografias que abordem o racismo de maneira profunda, como é necessário que se faça. Por isso, na realidade diária, muitas pessoas negras continuam encarando a omissão e o despreparo dos psicólogos em seus consultórios privados – e muitas também não sabem que podem denunciar as práticas racistas e antiéticas.

Racismo e saúde mental

Encontrar dados que mostrem a relação entre racismo e adoecimento psíquico ainda é um desafio devido à carência de estudos e pesquisas acessíveis na área. O material que se encontra na internet é produzido por psicólogos militantes do movimento negro, como a publicação “Racismo e os efeitos na saúde mental” de Maria Lúcia da Silva, integrante do instituto AMMA Psiqué e Negritude.

cinthia1-278x300
Cinthia Vilas Boas: “Existe a discriminação institucional, quando profissionais da área não estão preparados para atender a população negra ou até são preconceituosos” (Imagem: Arquivo Pessoal)

Cinthia Vilas Boas explica que há muitas consequências do racismo para a saúde mental e traça um breve resgate histórico da população negra brasileira: “Em África, éramos diversas etnias, com nossos referenciais, línguas, oralidade e educação; viemos para o Brasil escravizados, em condições sub-humanas, como animais; hoje estamos nas favelas, com falta de acesso a tudo, sofrendo com a falta de respeito e baixa autoestima”. Vilas Boas chama atenção para essa contextualização, explicando que a população negra brasileira não conhece sua ancestralidade e nem sua “história positiva”. “Se pensarmos que nossa construção enquanto humanos parte da visão que o outro tem e a história positiva não é contada, estamos em constante angústia. A nossa história nos foi negada, não foi contada e foi distorcida”, salienta.

Por isso, o sofrimento psicológico pode começar na falta de acesso a informação e da dificuldade de enxergar as pessoas negras como parte de algo bom, que trouxe contribuições para a história. Na escola, as crianças aprendem sobre a história europeia e sobre as descobertas realizadas por pessoas brancas, mas a história do continente africano e suas diversas riquezas e saberes é omitida. “O povo negro não se sente pertencente das suas realizações, das suas posições, das suas possibilidades, das suas contribuições. Isso causa um desequilíbrio, sendo assim um impacto na psiqué”, diz Vilas Boas.

O resultado desse ponto inicial é um ferida na autoestima, que leva pessoas negras a se enxergarem de maneira inferiorizada, pois são tratadas pelos outros como inferiores. Debaixo de humilhações constantes, sem representatividade positiva na mídia e até mesmo no entretenimento, vivendo sob os piores índices e indicativos sociais e, ainda, ouvindo o tempo inteiro que o racismo deixou de existir, o sofrimento psíquico é um destino certo.

Até mesmo a possibilidade de identificar a raiz do seu sofrimento é roubada das pessoas negras, mesmo quando conseguem romper muitas barreiras sociais e pagar um atendimento psicológico – algo que ainda é muito caro no Brasil. “Eu fiquei me questionando se não estava errado que duas psicólogas me dissessem que não existia racismo e que as dores que eu sentia eram criações da minha mente. Achei, por muito tempo, que eu estava totalmente louca e duvidei da veracidade dos fatos que eu vivi. Fiquei achando que nada havia realmente acontecido e eu estava com um problema mais grave do que depressão”, conta Marília Lopes. “Depois de muitos meses foi que consegui entender que fui mal atendida, mas só quero voltar a fazer terapia se a psicóloga ou psicólogo forem negros, quem sabe assim esse profissional tenha mais empatia e até tenha vivenciado fatos similares aos que me agrediram”, finaliza.

Mais desafios

Imagem: Reprodução / Facebook
Imagem: Reprodução / Facebook

“As políticas publicas estão aí; já pensamos, já falamos em conferências e agora precisamos tira-las do papel”, afirma Vilas Boas. “A Política Nacional de saúde da população negra, que pode diminuir disparidades raciais na saúde, é pouco conhecida, bem como a Lei 10.639, entre outras varias leis, campanhas e diretrizes. A fim de avançar no tema, o Conselho Federal de Psicologia criou a Resolução Nº 018 em 2002, que estabelece normas de atuação para psicólogas e psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial”, explica. Porém, na prática, a realidade é outra. “Existe a discriminação institucional, quando profissionais da área não estão preparados para atender a população negra ou até são preconceituosos, levando a diferenças e desvantagens no tratamento devido à raça. Para o profissional da saúde, é importante trabalhar a equidade do SUS, é importante que ele saiba trabalhar as diferenças”.

A educação pode ser um ponto chave para modificar esse quadro – Vilas Boas explica que é necessário construir um espaço legitimo e confortável para que as pessoas negras construam sua identidade. “Sem piadinhas, sem que o estereótipo fale mais alto, sem que sejamos vistos como sujos, burros ou coitadinhos. A humilhação atinge o sujeito no que constitui, atinge o negro na sua presença”, protesta.  “Não queremos mais os atributos inferiores, fixados no nosso inconsciente. Queremos ser negras e negros protagonistas da própria história, da história da sociedade. Uma sociedade mais democrática e sem desigualdades. Que a gente possa fazer a diáspora de sentimentos, sabendo que sentimento é, de onde veio, como veio e aonde vai. Que a gente possa encontrar o equilíbrio para preservar a saúde mental”, almeja Vilas Boas.

Enquanto buscamos esse país livre de racismo, precisamos reconhecer o problema do racismo em todos os âmbitos sociais, sem que nenhuma prática profissional ou formação acadêmica fique isenta de sua responsabilidade. Não dá para ignorar um problema tão grave e fazer vista grossa para o despreparo profissional de psicólogos que não conseguem lidar com as questões raciais. O ensino de Psicologia precisa mudar.

“O negro com muita melanina é invisível, tem a voz calada. O negro com pouca melanina é desconsiderado e muitas vezes não sabe a que grupo étnicorracial pertence. Onde guardamos e como e vivemos a nossa subjetividade? Quem são as pessoas que estão produzindo na academia? São brancas ou negras? Estão produzindo o que?”, provoca Cinthia Vilas Boas.

A resposta pode não ser confortável, mas encará-la é o primeiro passo para que a saúde mental deixe de ser um privilégio de poucos. O racismo precisa ser reconhecido e combatido para que exista, de fato, saúde mental.

Foto de capa: Reprodução / Facebook

 

 

Por que comecei a aprender libras?

Por Mariana Santos¹

Quando eu comento com as pessoas que faço curso de LIBRAS, com frequência elas me fazem as seguintes indagações “o que é LIBRAS?”, “pra que você faz esse curso?”, “tem alguém Surdo na sua família?” …

Para começar, o que significa LIBRAS? LIBRAS é a sigla de Língua Brasileira de Sinais, é a língua utilizada pelos Surdos para se comunicarem (não é uma linguagem de gestos como muitas pessoas consideram). É uma língua com suas regras e estruturas gramaticais.

Gostaria de compartilhar com vocês sobre a minha história com a LIBRAS. Me recordo que desde criança, ao observar os Surdos conversando eu me fascinava, parecia algo que me hipnotizava. As conversas entre os Surdos me deixavam extremamente curiosa, mas essa curiosidade era muito além de saber o que estava sendo dito, eu queria saber como era se comunicar fora do mundo dos sons. Porém, não tive nenhum contato com a LIBRAS ou com Surdos na infância.

Após começar a faculdade de psicologia, comecei a me indagar de como era a psicoterapia para um Surdo. E em algumas pesquisas, vi que quando eles realizavam consultas com médicos por exemplo, precisavam de alguém para interpretá-los. Mas, como fazer o processo terapêutico com um interprete? Então, comecei a procurar psicólogos que sabiam LIBRAS e descobri que estes profissionais são bem escassos.

Após concluir a faculdade, comecei a buscar cursos de LIBRAS para aprender e começar a atender os Surdos. Mas, por não ter nenhum conhecimento da língua, achei que poderia aprender em 6 meses. Já que tinha visto algumas aulas no youtube e aprendido alguns sinais achei que seria fácil. Mas, me enganei!

Me matriculei na DERDIC. No primeiro dia de aula levei um susto enorme, eu sabia que os professores eram Surdos, mas achava que teríamos interpretes nas aulas e que seria tranquilo. Quando percebi que seriamos apenas nós e o professor, meu coração gelou.

Já nas primeiras aulas comecei a perceber a importância de não ter interprete e o quanto isso facilitava para aprender os sinais, mas confesso que mesmo assim queria interprete nas aulas. Compreendi também que aprender LIBRAS estava muito além de fazer expressões faciais, aprender os sinais e a estrutura da língua. Entendi que aprender LIBRAS era entender que ser Surdo não era apenas não escutar (como eu achava até aquele momento), mas que é uma identidade.

Comecei a entender algumas lutas da comunidade surda, compreender que algumas convenções da cultura ouvinte não fazia sentido para os Surdos e passei a entrar um pouco neste universo. E quanto mais eu me envolvo, mais me apaixono!

Por outro lado, quanto mais envolvida eu me encontro com este universo fascinante, mais indignada eu fico com a falta de acessibilidade, com a falta de LIBRAS nas escolas regulares e com o esquecimento da Língua Brasileira de Sinais pelos governantes que não permite que a população em geral conheçam mais sobre essa língua, que é a segunda língua oficial do Brasil.

Hoje percebo o quanto ela é importante para o Surdo e o quanto a falta de contato com essa língua, causa prejuízo para as crianças Surdas que crescem em uma família ouvinte sem o contato com a LIBRAS.

Sei que os Surdos lutaram muito pelo reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais e que esta luta não terminou. Mas, também sei que quanto mais pessoas apoiarem esta luta, maior será o sucesso!

¹É Psicóloga formada pela UNIP (2013). Trabalhou durante 7 anos na área organizacional, atuando com recrutamento e seleção, sendo responsável também pela contratação de Pessoas com deficiência. Esta experiência a sensibilizou para a questão da inclusão dentro do meio empresarial e a falta de preparo dos gestores, além de fazer repensar sobre a inclusão dentro do contexto clinico. Atualmente, cursa o módulo avançado de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) na DERDIC/PUC-SP, com intuito de me capacitar para fazer uma clinica acessível as pessoas Surdas.  Trabalha na área clinica no atendimento de crianças, adolescentes e adultos.

Distante da alienação, próxima do seu papel político: Quando faz críticas aos usuários da cracolândia, você pensa nos seus privilégios?

Por Carolina Cristal¹

No dia 21 de Maio de 2017 enquanto a terra São Paulo celebrava em baixo da garoa um dos maiores eventos culturais promovidos pela Prefeitura da cidade, a virada não foi apenas cultural e o show deu lugar no palco para mais de 970 políciais – segundo a G1, página virtual da rede globo – iniciando uma dispersão com bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha, gritos e destruição de tudo o que estava à frente da operação (incluindo aqui, os pertences e documentos das pessoas). A operação foi feita em conjunto, de um lado o Governo do Estado de São Paulo, atrás de Geraldo Alckmin e do outro a Prefeitura de São Paulo, atrás de João da Costa Doria Jr.
No mesmo dia o Prefeito anúnciou o fim do Programa “De Braços Abertos”, este pautado na política de Redução de danos e no cuidado em liberdade, compreende que o uso de drogas num contexto de vulnerabilidade social precisa ser tratado com a mesma complexidade que todos os assuntos isolados. Nesse sentido esta questão não deve ser olhada apenas pela àrea da saúde ou da segurança pública e sim ser estendida à esfera dos direitos humanos.

 

É a partir da garantia de direitos que a lógica do Programa funciona, ganrantindo moradia, alimentação, acesso aos serviços da assistência social e equipamentos de saúde além de frentes de trabalho. Segundo a pesquisa independente da Plataforma Brasileira de Políticas sobre Drogas e dados da PMSP, 88% dos beneficiários diminuiram o consumo de drogas, 83% estão em tratamento de saúde e 54% retomaram o contato com a família. Outra pesquisa, feita pela OpenSociety após dois anos da implementação do programa, 72,75% dos usuários estão trabalhando.

 

Se faz importante ressaltar que se trata de uma política em constante construção, que necessitaria de melhorias no serviço e instrumentos de trabalho qualificados para a formulação de mais projetos e seu constante crescimento. No entanto, o prefeito não concorda com estes dados.

 

A ação se inicou às 6h45 e pouco depois haviam muitas pessoas manifestando suas opiniões sobre o tema. Seja na televisão, no rádio, em blogs, sites de jornais, redes sociais.
Minha atenção se voltou à uma página da Polícia Militar que havia participado da ação na cracolândia:

 

“Parabéns pelo trabalho. Esses zumbis não deveriam estar ali. Demorou muito pra isso acontecer. A cidade tinha que ser limpa mesmo. A polícia retirou os pertences deles? Essa sujeirada que eles fazem? É tudo lixo pra eles, tudo descartável, ganham cobertor num dia, no outro jogam fora. Esse monte de vagabundo.”

 

Diz você, em baixo dos seus cobertores naquele domingo chuvoso, atrás da tela do seu celular, que você não pode esquecer nenhum dia sequer em casa, ou ficar sem bateria um minuto, se não, não consegue viver.

 

Logo depois, veio a hora do café. Aquele que você bebe pelo menos 3 vezes ao dia. Um de manhã, se não, não tem como sair de casa pra trabalhar. Um depois do almoço, pra dar aquela acentada na comida. Outro à tarde, só por ser de classe média e poder tomar um café da tarde mesmo.

 

Sábado à noite você foi curtir seu sertanejinho de lei com as migas ou os brothers. No carro vocês ouviram “pega no violão, um copo, uma cerveja, um whisky e um cigarro” (Wesley Safadão – meu coração deu pt). Encheu a cara, não dá pra sair de casa e voltar sóbria(o) né? Voltou bêbada(o) dirigindo. Na volta ainda botou pra tocar “sabe que eu sou viciada e bebo dobrado ouvindo um modão… garçom, troca o dvd que essa moda me faz sofrer o coração não guenta… e os 10% aumenta” (Maraia e Maraisa – 10%).

 

Na sexta você tinha ido ao futebolzinho de leve. Bebeu cerveja com churrasco depois. Chegou em casa fedendo e capotou até o dia seguinte.

Na quarta, dia de jogo na tv, você fez a mesma coisa, só que sem o exercício físico antes. Você não notou, mas sempre tem propagandas de cerveja vinculadas à esse esporte, seja dentro do campo ou nos intervalos. Você também acha que futebol sem cerveja não tem graça. Você foi manipulada(o).

 

*estudos comprovam que a mídia fala muito mais dos danos causados por drogas como o crack, a cocaína e a maconha – que são utilizadas por menos de 10% da população – enquanto o álcool é romantizado nas letras de músicas e na televisão. Naturalizando o uso abusivo. Sendo consumido por mais de 80% da população.*

 

Quando você consegue olhar pro lado e enxergar alguém além do seu umbigo, percebe que a sua mãe só consegue dormir tomando aquele remédiozinho. E que além deste, ela toma pelo menos 5 por dia. Um pra ajudar a celulite pra poder colocar um shorts “quando formos pra praia”. Um pra regular os hormônios. Um multivitaminico, “afinal precisamos sempre cuidar da saúde das unhas, cabelos e pele”. Um pro intestino, que anda meio desregulado nos últimos dias – “compramos mamão e activa, mas não funcionou”. E aquele famoso ômega 3 que a moça da top term na televisão de plasma 3 da tarde contou pra que serve.

 

Do outro lado têm seu pai, que bebe uma tacinha de vinho todas as noites antes do jantar por que faz bem pro coração. Todo almoço de domingo tem que ter coca-cola. Seu irmãozinho está fazendo proerd na escola. Na semana anterior a Anvisa reconheceu a maconha como planta medicinal. Crianças pobres traficam pra ajudar a família. E durante a semana, no seu trabalho, depois do almoço, não pode faltar o chocolatinho.

 

Você, que se achou aqui. É uma pessoa privilegiada. Não seja alienada também. Saia da sua bolha de hipocrisias. Perceba que a estrutura social e institucional de São Paulo, sobretudo, funciona pra nos adoecer. Perceba que ter relações de dependência fazem parte da condição humana.  Ainda mais na era do consumo que vivemos.

 

E que as pessoas que NÃO tem os mesmos privilégios que VOCÊ, estão expostas à muitas  vulnerabilidades. Das quais você nem faz ideia.

 

Então querida (o). Tira o sapatinho. Coloca seu pé no chão. Que a realidade é bem outra. Quando falamos em políticas públicas não é pra pensar em cidade bonita pra quem já tem privilégios.

É pra pensar em gente.

 

 

¹Sou Carolina Cristal, formada em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, fui bolsista durante toda a graduação e me formei em 2015. Trabalhei desde à faculdade (em 2014) até 2016 com educação infantil, num viés distante do ensino tradicional que busca promover o desenvolvimento na primeirissima e primeira infância à partir do contato com a arte, a música e a psicomotricidade. No ano de 2016 participei da atualização profissional sobre Antroposofia e Educação na ong alquimia. Em 2017 iniciei uma pós na UNIFESP sobre alcool, drogas e vulnerabilidade social e fiz a atualização profissional à distância na UFMG sobre atenção básica à saúde da mulher em situação de violência. Hoje atuo como Psicóloga clínica e social com projetos independentes. O primeiro é a Roda Terapêutica das Pretas que se propõe a promover processos grupais para mulheres negras que não tem acesso à essa ciência e o segundo é o “zines infantis” onde formamos um grupo multidiciplinar de mulheres que se propõe à construir histórias infantis abordando temas ainda distantes da realidade das crianças, tais como alimentação sem veneno, questões de gênero, modelos de familia não mucleares, etc. Os zines vem também com o intuito do conhecimento ser acessivel para todos.”