Quando eu Deixei de ter vergonha de entrar nos lugares

Por Lívia Marques
“Que título é esse Livia?”
É isso mesmo. Eu já tive muita vergonha e receio de entrar e frequentar alguns restaurantes e shopping.
Sabem aquela frase que muitos escutamos durante a vida quase toda?” Sabe como é né? A gente que é de cor, precisa se comportar e ficar na nossa.”
Durante muito tempo pensei assim. Mas um belo dia comecei a me questionar por que dessas amarras na vida?
Mas isso foi depois, quando eu já tinha meus 20 e pouquinhos anos. Hoje eu tenho 33 anos. Então não tem tanto tempo.
Contei em tudo isso, com um estágio em uma grande Instituição Nacional de pesquisa , em que eu era uma das pouqíssimas estagiárias negras. E eu comecei a perceber que se eu ficasse ali calada ninguém veria meu potencial. Nunca verão, se você ficar aí caladinho(a) e quietinho(a).
Hoje depois de muito tempo, vi o quanto aquilo me prejudicou, psicologicamente. Como aquilo em que tanto acreditei e achava uma máxima impediram que eu fosse mais ainda.
Mas você pode se perguntar:”Ela não foi porque não quis!”
Bem, eu hoje vejo, que eu não fui por conta de uma crença limitante, algo que desde muito tempo é imposto socialmente e a gente vem arrastando até os dias de hoje. Não, não é vitimismo. Hoje eu trabalho, escrevo, mostro o quanto é possível ser diferente e mais e mais. O quanto nós temos de capacidade.
Dias desses dei uma entrevista falando sobre Racismo e me perguntaram se Racismo é patologia. Em minha página tem um video que fiz falando sobre isso, confira no link abaixo.
Um dia desses paramos em uma dessas redes que tem de restaurantes na estrada(caminho São Paulo). Ao meu redor não tínhamos negros. Quando vou à um restaurante aqui em Laranjeiras, somos os únicos. Uma vez fomos com minha mãe lá, ela negra, ela ficou envergonhada. Conversamos muito com ela. Agora ela diz:”Não tenho mais vergonha alguma! Estou aqui como todos os outros e vou e posso.” Para mim isso é importante, não é apenas uma vitória minha, mas nossa.
Livia Marques
Psicóloga Clínica
CRP 05/37353
(21) 997136690
Livia Marques
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Oi Quem é você?

 

Por Lívia Marques

Pois então, esta tem sido uma pergunta que volte e meia estou ouvindo. Ué que estranho…

Também acho. Mas vou explicar um pouco melhor.

Sou Livia da Silva Marques, Psicóloga Clínica e Organizacional, Empreendedora na Empresa PsiGente, onde ministro treinamentos, palestras e presto consultorias para pessoas jurídica e física.

Ah! Sou filha de um pai branco e uma mãe negra. Ambos vieram de famílias humildes que moravam e alguns ainda moram em comunidades do Rio de Janeiro.

Sou Coautora do Livro “Construa o seu Caminho. Você está Construindo o seu?” e Coordenadora do Livro” Desafios de Educar. Educar hoje.”. Ainda sou Professora de Algumas Faculdades do Rio de Janeiro.

Mas então quem é você, Livia? Sou Livia, Psicóloga, Negra, Mulher, Mãe, Filha, amiga e buscando sempre trabalhar e ter a Empatia que é necessária para a vida profissional e pessoal.

Uma vez ao abrir a Porta do Consultório em que trabalho ouvi:” Oi Quem é você? A secretária, a faxineira? “Eu fiquei parada , perplexa. Observação: Caso eu fosse qualquer outra profissional não teria problemas. Trabalho honesto e correto. Sem humilhar as pessoas onde busco o meu sustento precisamos aplaudir. Haja vista o que temos visto por esse País (mas isso é para outro papo). Respondi: “Sou Livia, Psicóloga que também trabalha aqui!”.

A pessoa ficou sem expressão. Mas me senti estranha naquele momento. Mais um dos momentos, não é verdade?

Um outro momento que me marcou muito foi recente: Cheguei a um Congresso de Psicologia, quando olhei ao redor, a maioria pessoas brancas. Me questionei: “Nossa cadê os outros?” Sim! Pois já entendia mais sobre a Representatividade. Mas segui. Legal que encontrei duas amigas, negras lá. Depois nos juntamos com outras queridas amigas, brancas, negras, todas Psicólogas que estão engajadas em entender mais e mais sobre as questões psicológicas e como podemos melhorar nossos trabalhos.

 

Ser Psicóloga negra, no início eu via como algo complicado demais. Mas hoje vejo o potencial que temos. Não apenas o potencial de atendimento. Tenho pacientes de todos os públicos e tenho muitas pessoas que são brancas e querem conversar mais sobre racismo. Nós falamos!

Tenho pacientes negros, que buscam essa representatividade e que hoje florescem lindamente. Um orgulho que tenho…

Meus alunos, um caso à parte. “Uma vez ministrando uma aula. Terminei a aula e uma aluna ficou na porta me aguardando. Olhei para ela, e ela muito séria. Perguntei se tinha alguma dúvida ou se tinha ficado chateada com algo.

Ela disse: “Não! Estou até agora impressionada. Mas por que? Estou representada. Nunca tive professores negros na minha graduação de Psicologia. Agora com você aqui me deu esperanças.” Daí falamos sobre “n” assuntos que me deixou feliz e ela também. Sabe a história de se ver no outro? Eu estava cansada, já eram quase onze da noite. Mas fiquei ali conversando com ela. Depois quando cheguei em casa, chorei. De alegria, de mais um dia de resistência, mais um dia de conquistas e mais um dia que PUDE AUXILIAR NO EMPODERAMENTO.

Por enquanto é isso.

Muitos abraços da Psicóloga Livia Marques

CRP 05/37353

21 997136690

Atendimentos no Rio de Janeiro

https://www.facebook.com/psicologaliviamarques

 

 

Um corpo limitado, desconhecido e não cuidado.

Por Tainã de Palmares¹

Não é novidade que vivenciamos interinamente um processo de combate as desigualdades. Nascer negrx, ou melhor, perceber-se enquanto negrx e afirmar essa negritude é carregar consigo uma militância compulsória, violenta e desgastante, mas, fazer dessa uma maneira de garantir os direitos das minhas pares, ou apenas, dizer que os conheço muito bem.

Carregar um corpo limitado, é perceber que não nos resta espaço para além das fronteiras da subserviência. Ainda que, a sua trajetória seja brilhante, e que todos digam o quão inteligente, sagaz ou produtiva você “possa ser” nessa perspectiva futura, pois ainda não o é, alcançar ou apenas tentar alcançar uma realidade diferente é quase impossível. Nada será suficiente, porque mesmo sendo um corpo dotado de intelectualidade, perspicácia e lucidez, será apenas um corpo negro, arrogante e no lugar errado.

Compreender-se dentro de um corpo desconhecido, é justamente não compreender-se. Não saber de suas especificidades, não chegando muito longe, é não ter respostas para a pergunta “Quem sou eu?”. Um corpo que não sente prazer, porque experimenta sensações de morte-vida constantemente. Um corpo ao qual não se tem referências do ser belo, do ser intacto.
Um corpo monstruoso, porque quando é visto causa estranhamento, medo. Um corpo sempre no lugar da violência potencial, ainda que seja um corpo recém concebido ao mundo.

Conduzir um corpo limitado e desconhecido é acreditar que esse não precisa de cuidado. Ao passo que, não é prioridade entender esse corpo, também não se faz necessário cuidar desse e das miudezas que esse traz consigo. Se eu não conheço eu não prezo. Se não me conheço não me cuido,  e, se não me cuido, não sei praticar o cuidado com os demais.

Falar do corpo negro como apenas um corpo, pode causar estranhamento. Perceber um corpo como apenas um molde de massa e músculo é negar que entre as veias pulsa sangue. No sentido mais amplo que essa afirmação pode trazer, é negar que um corpo negro carrega subjetividade.

No mesmo instante, parece paradoxal tratar esse corpo dessa maneira distante, tendo em vista que socialmente o corpo negro é um corpo público e subserviente. Esse corpo tratado como a extensão das ruas, onde não há restrições para pegar, vilipendiar, violar. Esse corpo sempre apontado para o lugar da servidão, que tem que estar disposto a acatar, ouvir, obedecer.

Transitar nesses dois espaços é cruel para o sujeito que carrega esse corpo negro. Sim, existe um sujeito nesse corpo negro. Os impactos de estar nesse lugar são devastadores. Porque é sofrido estar no lugar da marginalização, da invisibilidade, da pobreza, paralelo a isso, tentar alcançar a dignidade é tão sofrido quanto, porque todos os olhares apontam a porta da rua, como sendo essa a única e mais pertinente saída.

Como pensar então essa Saúde mental quase inexistente? Como pensar essa Saúde Mental por diversas vezes enlouquecida?

Negar os lugares preexistentes para nós negras e negros causa um estranhamento enorme tanto para nossos algozes, que não admitem nossos voos mais altos, quanto para nós que, vivenciamos a descredibilidade quanto as nossas conquistas. Trazer nossas pautas enquanto negritude e perceber que esse fator potencializa as outras opressões é demarcar um espaço de guerra, tocar na ferida de muitos inclusive e primeiramente nas nossas, e, perceber que falar sobre Saúde Mental e não tocar na desconstrução/reconstrução desse corpo negro é uma complexidade tremenda.

Tão complexo quanto perceber que o adoecimento está para nós, povo preto está diretamente ligado à nossa sobrevivência, tendo em vista que ainda precisamos lutar diariamente para garanti-la.

¹Tainã Vieira de Palmares, Psicóloga, Feminista Negra, Pós Graduanda em Psicopedagogia Institucional e co-fundadora/co-diretora da Rede Dandaras.
²Imagem da internet referente ao Guerreiro Africano que teve seu corpo dissecado e exposto em museu por cerca de 80 anos. Sem nome e sem história, esse, teve seu corpo exibido como um troféu.