“Uma pausa para o Silêncio”

Samanta Santos¹

Como é o silêncio para você? Faz barulhos de uma mente acelerada, e de um relógio atrasado que gera mais ansiedade? Ou é uma possibilidade, um lugar possível em que você consegue se reencontrar? Já parou para pensar?!

Há silêncios e silêncio…

Há silêncios que são inquietantes e que logo nos fazem ouvir o barulho interno de nossas almas e mentes aceleradas, compromissadas, e que logo nos faz querer direcionar a atenção a algo menos profundo, desviando o olhar para todos os estímulos do mundo externo. O que causa um distanciamento maior de si próprio.

Há outro tipo de silêncio que acalanta e acalma que, se você escutar, é aquele que te permite ficar com o que é interior, a entrar em contato com o que é somente seu: identificando, reconhecendo, aceitando e rejeitando, assimilando conteúdos e percebendo o seu mundo interior. É um processo vivo: por vezes, lento, mas gradual e de desenvolvimento.

No entanto, em nosso dia a dia, a transição de um silêncio inquietante para um silêncio apaziguador não é simples, pois o tempo é regido pelo barulho agitado de nossos pensamentos em suas cobranças, pelo relógio da sociedade que só faz aumentar a ansiedade, pelo barulho da solidão mesmo estando em meio a opções, pelo barulho do sofrimento, seja físico ou emocional, que grita, clama e pede por atenção. Barulhos diversos de uma sociedade opressora e de relevantes retrocessos.

O dia a dia também é pautado pelo ritmo da sobrevivência. Muitas mulheres negras não sabem e/ou não conseguem parar alguns instantes para se observar, se cuidar, para se auto amar. O ritmo de manter uma casa, filhos, carreira e o próprio emprego se fazem como o único caminho. É o “ter que” ter que fazer ou manter isso ou aquilo, cuidar e conquistar isso ou aquilo em tempo e de forma (quase) perfeita. Não há tempo para parar e errar! É um barulho que não para, não cessa, dispara e mantém o coração em alerta, distancia das emoções e deixa o foco somente para a produção. Resultados, resultados e mais resultados! Nesse ritmo, é difícil parar para se observar, para silenciar. O silêncio interno pode, em alguns casos, ser substituído por remédios, por máscaras na sociedade, por relacionamentos abusivos e não afetivos, por experiências vazias. É o que eu observo.

Em muitas realidades, há diversas questões que evitam que nós, mulheres negras, não consigamos parar e silenciar por alguns momentos. Cada uma, em sua realidade, pode perceber o que te impede.

Mas, como é parar e silenciar? Cada mulher (cada pessoa) pode ter sua forma, somos muitas, somos plurais, e diversas são as possibilidades. Nesse momento, no entanto, eu quero convidá-la a vir comigo experimentar, são menos de dois minutos o que quero te mostrar…

Encontre um lugar que você gosta, seja ele qual for desde que seja um lugar em que você possa chamar de seu. Encontrou?! Sente-se de um modo que lhe seja confortável e fixe (enraíze) seus pés no chão, relaxe! Fique de olhos abertos, cabeça erguida (na linha do horizonte) e mantenha o olhar fixo em um ponto de referência. Se preferir feche os olhos, mas mantenha os pés fixados no chão, em sua realidade. Relaxe o corpo, respire três vezes bem fundo e, com a boca levemente aberta, solte bem devagarinho o ar que te traz e te enche de vida. Perceba se existe alguma tensão muscular, relaxe! Respire fundo de novo e tente perceber o movimento e a pulsação de sua respiração, de seus pulmões. Relaxe! Solte seus ombros, solte seus braços, solte seus músculos faciais, solte sua pelve, e suas pernas. Relaxe! Tente perceber se existe outra parte do corpo que está tensa. Sinta o movimento de sua respiração, o ar enchendo e o ar esvaziando seus pulmões. No movimento de trazer o ar, inspire pensamentos positivos, de coisas e pessoas que te nutrem e que te fortalecem. No movimento de devolver o ar, expire todo pensamento ruim, que te traz sobrecarga e cobrança demasiada, emoções vazias e que em nada te inspiram. Sinta o pulsar de um corpo que está vivo. Sinta o movimento da sua respiração. Respire, respire, respire. Mecha levemente os dedos dos pés, os dedos das mãos. E pouco a pouco, volte para sua realidade. Bem vinda: essa também é você!

Eis uma possibilidade de “silêncio” em um exercício de relaxamento. Escute-se internamente e perceba como você está neste momento, como andam suas emoções. Se ouça, se perceba e identifique qual a emoção predominante e como ela está relacionada ao que você está vivenciando em sua vida externamente. Essa ainda é você e em contato com seus sentimentos, em seu silêncio, se abrindo a possibilidade de “costurar” informações do seu mundo interno com situações do seu mundo externo. Um momento assim pode trazer mais consciência e lucidez sobre os próximos passos a se fazer. Você também pode fazer isso acompanhada de um profissional da saúde, por exemplo, em um processo de psicoterapia, em que uma Psicóloga/o te ajudará a compreender o que daí poderá aparecer.

Ao abrir os olhos físicos e da alma, ao voltar e olhar para a realidade externa, o mundo continuará sendo o mesmo de antes, mas o seu mundo interno, mas você, já poderá estar diferente, mais centrada, mais enraizada em você mesma, em mais contato com você, com um corpo vivo e que pulsa, de posse de seus sentimentos, mais fortalecida, com seus pés no chão e em sua realidade. O mundo externo será o mesmo, mas você poderá estar mais confiante de si para dar passos e atravessar sua existência. Experimente: uma, duas, três… Experimente frequentemente! Permita-se se (re) encontrar em seu próprio silêncio.

Samanta Santos da Fonseca
Psicóloga Clínica|CRP 06/12393-3
Mulher negra sonhadora e apaixonada pela vida e suas possibilidades

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